
Estou lendo um romance de um desses escritores brasileiros que todo dia acorda revoltado porque não se chama Charles Bukowski nem mora na Califórnia. Um problema, né? Esses moços escrevem livros descascando a espécie humana em geral, e as mulheres em particular. Uns escrevem melhor, outros pior. Mas a substância é sempre a mesma: eu sou fodão, inteligente e gostoso; o resto do mundo é uma merda; todo mundo é babaca; e os mais babacas de todos são aqueles que tentam mudar o mundo.
Até que o autor em questão não escreve mal, tem uma coisa assim meio noir, sabe? mas o que eu fico observando (já que a história não é grande coisa, apenas um fio tênue ligando as ruminações existenciais do fodão) é que, dentro desse universo, o herói está sempre comendo um monte de mulher.
Isso é estranho, porque, em princípio, ele não gosta de mulher.
Não que seja gay: é só que ele não gosta de ninguém.
Por que então – pergunto – comer as mulheres? E todas, absolutamente todas?
A questão me intrigava, mas hoje tive um insight que responde essa pergunta. A substância do livro do Bukowski tropical é a seguinte: ninguém vale nada, todo mundo é insignificante e tolo. Na ficção (notem que digo na ficção), transformar os personagens masculinos em nada, num zero, é fácil. Já com as mulheres é um pouco mais difícil. É mais complicado tirar a humanidade de uma mulher do que a de um homem.
O único jeito de operar essa transformação é... comê-las! Uma vez que você foi pra cama com uma mulher (e todas as mulheres desejam ardentemente ir pra cama com o fodão. Não entendi porque, ele parece um cara tão desagradável) você já a desmoralizou, ela não é mais nem personagem, é um zero à esquerda... Vira “aquela putinha que eu comi” (não estou exagerando, é exatamente assim que o Bukowskizinho fala no livro).
O interressante é que essa operação tão pós-moderna de um autor tão hype é feita com o mesmíssimo mecanismo que vigora há milênios, no imaginário masculino. Vocês conhecem a cantilena, não é, meninas? As mulheres se dividem em duas categorias. Tem as fáceis, que vão pra cama com os caras e não valem grande coisa. Tem as sérias, candidatas a mãe-dos-meus-filhos. E, ah, é claro, tem uma terceira categoria: a senhora mãe deles.
Consumada esta manobra conceitual, o autor (e às vezes também o leitor) respira aliviado, porque aquela complexidade básica, aquele poço escuro sem fundo do feminino, que assusta escritores, padres e aiatolás, deixa de o ameaçar.
Ela é só uma putinha.
Mais ou menos como “ela é só uma garota gostosa na capa”, ou “ela é só aquela coitada de chador”.
Interessante. Muito interessante.