quarta-feira, junho 21, 2006

A TERRORISTA



Dóris Fleury

Trinta anos atrás, quando Dona Arminda foi trabalhar no INPS, era jovem, bonita e recém-casada. Entrou no funcionalismo cheia de esperança. O emprego de ascensorista não era grande coisa, é verdade, mas ela só tinha ginasial. Com a ajuda de Deus e um bom supletivo, faria um concurso e subiria na vida – sem trocadilho!
O salário não era grande coisa, mas o Valmir também trabalhava.
Corte para hoje, 2006. O INPS virou INSS. O elevador foi trocado, e agora tem botõezinhos luminosos. Mas Dona Arminda continua lá dentro. Nunca conseguiu uma promoção. Engordou, e não sorri há vinte anos. Aos mais bem-educados, que tentam cumprimentá-la, responde com um grunhido.
Dona Arminda ainda usa aliança. Ninguém é obrigado a adivinhar que o Valmir fugiu, em 86 justamente, com uma moça bem mais jovem que ela... Também não era grande coisa como marido: além de andar com outras mulheres, deu pra beber, perdeu o emprego e deixou toda a responsabilidade dos filhos – Emerson e Sabrina – nas costas da Dona Arminda.
Outra coisa que o pessoal da repartição não sabe é que o Emerson, coitado, tinha um bom emprego, mas foi despedido do emprego do banco quando houve aquele corte grande, cinco anos atrás. Desde então, vive de biscates e da ajuda da mãe. E a Sabrina... bom, melhor nem falar da Sabrina.
Mas o pessoal bem que podia imaginar – e na verdade, até imagina – que o estado mental dessa mulher, depois de trinta anos numa caixa escura, sem promoção, sem ventilação, subindo e descendo sem parar, não deve estar lá grande coisa.
Os funcionários do SUS têm um vago medo da Dona Arminda. Nunca tentaram envolvê-la nas brincadeiras da repartição, nem perguntar da família. É verdade que ainda não desistiram de convidá-la para o amigo secreto, no fim do ano. Mas convidam só por educação.
Ou será por medo?
De qualquer jeito, ela nunca aceita.
Quinze anos atrás, Dona Arminda fazia tricô. Ficava sentada num banquinho alto, manipulando os botões do painel sem nem precisar olhar para eles. Depois, passou às palavras cruzadas.
Mas aí, algum burocrata de plantão decidiu tirar o banquinho de Dona Arminda. Ela agora tem que trabalhar de pé o dia inteiro. E foi aí que ela arranjou um passatempo compatível com sua nova posição.
Dona Arminda descobriu os prazeres do plástico-bolha.

Hoje em dia, quem entra pela primeira vez neste elevador é surpreendido por essa estranha visão: a mulher gorda, de uniforme escuro, que entre uma subida e uma descida estoura, com ar feroz, folhas e mais folhas daquele plástico cheio de bolhinhas de ar, normalmente usado para embalagens.
- Pufff!
Essa é Dona Arminda, estourando suas bolhas. Parece que ela arruma o plástico-bolha na Seção de Expediente. O pessoal da repartição, que já tinha medo dela, ficou ainda mais intimidado. Entram de cabeça baixa, sem dizer nada. Por mais que o papo esteja animado do lado de fora, aqui dentro ele murcha. Sobra só aquele barulho explosivo, raivoso:
- Puff!
E todo mundo cala a boca.

Bom, essa é a história de Dona Arminda. Mas o pessoal dos jornais e da televisão, que está acompanhando o drama do elevador seqüestrado pela ascensorista do SUS, não sabe de nada disso. Emerson, o filho, em lágrimas diante das câmeras, jura que a mãe sempre foi de boa paz.
- Mas ela vai soltar os reféns?
Emerson só chora.
- Sua mãe estava com algum problema?
- É verdade que ela tem uma granada?
- Emerson, você acha que sua mãe é ligada ao PCC?
- 'Magina, moça, que é isso! Minha mãe é trabalhadora, viu?
- Emerson, estão me informando que você tem uma irmã... Ela está aqui?
- A Sabrina? Melhor nem falar dela!
É nesse momento que há um zumzum-zum no meio dos repórteres:
- Saiu a reivindicação da Dona Arminda!
- Saiu? O que ela quer?
- Major, o senhor pode explicar aos nossos espectadores quais são as exigências da seqüestradora?
O major da PM, veterano de rebeliões e seqüestros, balança a cabeça, desnorteado:
- Olha, nem eu estou entendendo. É uma história de plástico-bolha!
- Plástico-bolha?
- É, isso mesmo. Diz que acabou na Expedição.... Ela quer duzentas folhas, e já! Senão, vai soltar o pino da granada e explodir o prédio inteiro!
Repórteres e policiais se entreolham, desnorteados. No silêncio, só se ouvem as sirenes dos camburões. E o choro do Émerson.

terça-feira, junho 13, 2006

BOA VIZINHANÇA


Dóris Fleury

Na vida, muitas vezes, o essencial é perceber as diferenças. Não confundir os bagulhos. Ou, como diria o grande filósofo Tim Maia: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! Entenderam?
Por exemplo, vocês sabem a diferença entre um Problema Muito Chato e uma Situação Horrorosa?
Vou contar pra vocês.
Um Problema Muito Chato é o que aconteceu com aquele cidadão que finalmente, depois de anos de trabalho, conseguiu comprar o apartamento dos seus sonhos. Sabe aqueles prédios meio antigões, de pé direito alto, cômodos espaçosos, ventilado e iluminado nos padrões adequados para um ser humano? Pois é. Esse sujeito conseguiu comprar um desses, em bom estado. Fez uma reforma completa e deixou o apartamento nos trinques. Quando estava tudo pronto, reformado e decorado, mudou de armas e bagagens pro seu apê.
Na primeira noite, ficou curtindo a nova residência, ouvindo música no seu aparelho de som e tomando um reconfortante uisquinho. Depois disso, feliz da vida, tomou um banho e foi para cama. Sozinho, pois era solteiro.
Dormiu até as três da manhã. Pelo menos foi essa a hora que viu nos números luminosos do relógio digital ao seu lado, quando despertou. Tinha sido acordado por um ruído muito estranho, que vinha do andar de cima. Um ruído de cadeiras arrastadas.
Três horas da manhã! Devia alguém chegando da balada, ou um insone crônico, sem nada para fazer... Não era exatamente um ruído ensurdecedor. Mas também não dava pra dormir com ele. E outra – continuou assim até as quatro da manhã, mais ou menos. E depois que parou, é claro que o pobre sujeito não conseguiu mais pegar no sono.
Imaginou que fosse algo ocasional... Mas no dia seguinte a performance se repetiu, no mesmo horário. Nosso herói era uma pessoa muito educada, e só na terceira noite se aventurou a dar umas pancadas no teto, para ver se o barulhento parava com a dança das cadeiras. E o sujeito parou... por exatamente dez segundos.
É claro que o próximo passo foi reclamar pessoalmente no apartamento de cima. Foi atendido por um cidadão muito mal-humorado, mas completamente vestido e acordado, que disse que não estava arrastando cadeira nenhuma.
- Mas o barulho vem do seu apartamento!
- O senhor está enganado.
Não estava, claro. Nos próximos meses, o novo proprietário levou vários amigos, e o próprio zelador do prédio, para testemunharem a performance das cadeiras. Às três da manhã. Todos concordaram que o barulho vinha do andar de cima, e exatamente do apartamento do sujeito mal-humorado. Não havia dúvida disso.
O condomínio se mobilizou. Cartas foram enviadas ao barulhento. Houve brigas feias entre o novo proprietário e o arrastador de cadeiras, que continuava afirmando que não arrastava coisa nenhuma, ainda mais naquele horário (mas estava sempre acordado àquela hora, quando o vizinho vinha reclamar). O barulhento também era proprietário. Impossível expulsá-lo dali. O Psiu da Prefeitura afirmou que não tinha nada a ver com o assunto. E o nosso amigo, enquanto isso, perdia noites de sono, não apenas pelo barulho, mas também pela raiva que passava!
Finalmente, resolveu botar a mão no bolso e gastar uma grana para resolver o problema. Faria um isolamento acústico de última geração e pronto, se livraria daquela tortura! Era uma solução covarde, mas fazer o quê?
Isolamento instalado, a tortura continuou. A firma responsável mandou um engenheiro, que apareceu no horário fatídico das três da manhã, ouviu as cadeiradas, coçou a cabeça e diagnosticou.
- É, não adiantou mesmo. Sabe por quê? O barulho vem pelos canos...
O homem estava desesperado. A falta de sono estava acabando com ele, vivia caindo aos pedaços, já levara até bronca do chefe. Dormia na sala, todo encolhido no sofá, mas até ali tinha a impressão de ouvir as malditas cadeiras. A vizinhança simpatizava com o seu sofrimento, mas nada podia fazer. Um dia uma velhinha lhe sussurrou no corredor.
- O senhor sabe de uma coisa? Já ouvi uns boatos de que esse sujeito do apartamento aí de cima – baixou a voz – é metido com tráfico de drogas!
- Tráfico de drogas? – disse ele, chocado. Mas depois, ao voltar para casa, refletiu – e daí? Se o vizinho fosse traficante, isso não explicava sua estranha mania de arrastar cadeiras às três da matina. Traficante ou não traficante, o sujeito o estava levando à loucura.

E até aí, se vocês me entendem, estava configurado um Problema Muito Chato.

Duas semanas depois, o vizinho de cima foi encontrado morto em seu apartamento. Escapamento de gás. Suicídio, aparentemente – e todos comentaram na vizinhança que o rapaz era muito esquisito. Parece que andava metido com o crime organizado...
Quanto ao nosso herói, assistiu à toda movimentação – bombeiros, polícia, vizinhos horrorizados – com um ar compungido. No fundo, estava dando pulos de alegria. Só ele sabia o quanto fora difícil roubar uma chave do sujeito, entrar em seu apartamento e abrir discretamente o registro de gás. Tudo isso às duas da matina, logo antes do rapaz chegar. Se o cheiro ficasse muito forte, ele perceberia.
Não gostava da solução, mas não tivera outro remédio... O vizinho fizera por merecer.
Naquela noite, pela primeira vez, teria um sono tranqüilo e ininterrupto até o nascer do dia.
Comeu um ótimo jantar, tomou banho, fez a barba e meteu-se num pijama novo, especialmente comprado para a ocasião. Adormeceu, feliz como um bebê.
E acordou, às três da manhã, com o mesmo barulho habitual das cadeiras arrastando.
Só que, dessa vez, eram duas.

E aí, caros leitores, ficou configurada a Situação Horrorosa.

terça-feira, junho 06, 2006

MEUS RASCUNHOS


Dóris Fleury

Creusa e Edileusa são irmãs siamesas. Creusa é boa gente, mas muito feia; Edileusa é bonita, mas invocada. Odeia a irmã. Não suporta o ronco de Creusa, à noite. Detesta as roupas que ela compra. Chama a outra de burra, estúpida, imbecil. Quando a coisa aperta, lhe dá uns pescoções. É um verdadeiro contorcionismo, mas vale a pena, pra ver a cara de dor da outra.
Todos se compadecem da pobre Creusa, obrigada a conviver com aquele monstro. Um dia chega à cidade um especialista que promete separar as duas, numa operação arriscadíssima, mas que lhe dará fama mundial. É um acontecimento. Vêm a TV, os jornais, uma verdadeira avalanche de mídia na cidadezinha onde elas moram. E não é que a operação dá certo? As duas gêmeas se separam. Edileusa vai embora, dizendo-se feliz por não precisar mais agüentar a mala-sem-alça da irmã. Creusa derrama sentidas lágrimas. Mas, se é para a felicidade da irmã, talvez seja melhor assim.
O tempo passa. Para grande surpresa de Edileusa, Creusa arranja um namorado, fica noiva e se casa, numa cerimônia bastante concorrida aliás. Edileusa morre de ódio, pois até agora não arranjou nem namorado, que dirá marido. Nem comparece ao casamento, limitando-se a mandar uma carta venenosa à irmã, onde lhe deseja toda a infelicidade do mundo.
Meses depois, Creusa fica grávida. Os meses passam. O parto se aproxima. A TV, quer anda sem assunto, entrevista a ex-siamesa, toda feliz tricotando o enxoval do seu bebê. Subitamente, Edileusa, a irmã má, reaparece na cidade. E é nesse momento que...
Gente, que 'cês acham? Fica muito manjado se a Creusa tiver siameses também?

O aquecimento global derreteu as calotas polares, e a Terra está inundada. Os seres humanos remanescentes se concentram nas terras mais altas, onde antes havia montanhas. E a água continua subindo. É preciso salvar a raça humana. Até que alguns cientistas têm uma idéia genial: desenvolver mudanças genéticas nas pessoas, para que elas possam viver e respirar debaixo d'água, como peixes. Muita gente se oferece como cobaias. Um deles é uma linda moça, que...

Uma história sobre monstros da infância. O bicho-papão que morava debaixo da minha cama. Imenso e felpudo. Faminto. Eu não botava nem o pé pra fora da cama, de medo que o papão abocanhasse. E o Homem do Saco? Temível. Andava pela vizinhança com um saco às costas, resmungando coisas sem sentido. Fugíamos dele feito o diabo da cruz. E os ciganos? Eu sei que não é politicamente correto dizer, mas eu morria de medo de cigano. O pessoal dizia que eles raptavam crianças. Eu estava convencida de que eles devoravam crianças.
Já minha irmã tinha medo de piranha. Uma piranha de verdade, que ela viu na enciclopédia, com o bocão aberto cheio de dentes afiados. Ficou apavorada. Depois disso ela fazia tudo que eu mandasse, era só ameaçar com a piranha.
E a loira da Gilette, oculta nos banheiros do colégio? Era um tal de passar vontade de fazer xixi, só pra não ir no banheiro! Nossa, como a gente passa medo quando é pequeno.
Ah! E tinha tambémo Zé do Caixão . Nunca tive medo de ninguém como do Zé do Caixão. Outro dia conheci ele pessoalmente; é um velhinho muito simpático, a filha dele é vampira. Mas naquela época, ixi! A gente se pelava de medo do Zé. Até os títulos dos filmes dele eram terroríficos: “À meia-noite encarnarei o seu cadáver”. Ele tinha um programa de TV. A mãe mandava sair da sala, pra não assustar, mas a gente continuava lá, grudado, simultaneamente apavorado e fascinado. Era um barato!
Agora imaginem só: podia pegar todos esses personagens, misturar e criar uma história só. Puta idéia legal!
Só que agora não dá pra escrever. Tenho uma apostila enorme de Direito Administrativo pra estudar. Vocês já ouviram falar de rescisão de licitações?

Pois é, gente. Estou estudando prum concurso público. Trancada em casa. Não vejo os amigos. Não vou ao cinema. Não leio. Nem TV eu vejo. E escrever, então... só groselha.
E, enquanto isso, um monte de histórias nascem, crescem, envelhecem e morrem na minha cabeça.
Inéditas, coitadas.
Pior que isso, só morrer virgem.

terça-feira, maio 23, 2006

VALE A PENA SER ADULTO?


Dóris Fleury

No último fim-de-semana, a Revista da Folha publicou uma matéria que deve ter deixado muito marmanjo coçando a cabeça. Era sobre aqueles adultos que, já entrando na faixa dos quarenta, têm comportamentos e atitudes associados à juventude. Pior: fazem isso na boa, sem a menor dor na consciência.
Pior ainda: se eu for honesta, me incluo nessa faixa.
Tá, eu tento ser madura. Responsável. Pago minhas contas. Cuido da minha prole. Vou ao médico com regularidade e tento não pisar na jaca. Drogas, só as legais – bebida alcoólica, Lexotan, televisão, essas coisas. Em situações complicadas, procuro manter a calma e não ter chilique. E na hora de educar filho - já descobri há anos - não dá pra bancar o adolescente e ser amiguinha da figura. Você é mãe, é figura de autoridade, então tem que se comportar como tal. Venho de uma geração que aprendeu a detestar a autoridade por conta de umas experiências desagradáveis que a gente teve – nada grave, só uma ditadurazinha... Mas na hora de educar, se você se recusa a “contrariar” a molecada, e foge das decisões desagradáveis, vai ter problemas.
Aprendi a aceitar decepções profissionais, até porque essa história de escrever não é moleza, e você pode se esforçar pra caramba e morrer na obscuridade. Aliás: já descobri que vou morrer. E que, sendo a vida curta, não vale a pena perder tempo com bobagem. Tenho muitos amigos. De vez em quando um pisa na bola. Guardar raiva por quê? Melhor esquecer a figura que aprontou com você, e valorizar aqueles que são ponta firme. Achar que a humanidade é composta apenas de safados irrecuperáveis é tão infantil quanto achar que no mundo só existem pessoas boas e angelicais.
Claro que cuido da aparência, até porque sou vaidosa. Mas não tenho a menor ilusão de que vou continuar aos 40 anos com aquela pele lisinha dos vinte. Aplicar botox e ficar com cara de boneca de borracha? Nem pensar! Esticar a cara inteira para apagar as marcas de tristeza ou de alegria que a vida me deu? Tô de boa.
Então, juntando tudo isso, será que sou adulta?
Gente, eu tenho uma página no Orkut.
Precisa dizer mais?
Então vamos lá. Pertenço à primeira geração que gosta de rock... como seus filhos. Eu e minha filha passamos horas discutindo méritos e deméritos das nossas bandas favoritas. Isso é bom, mas me deixa um pouco confusa. Meu pai só faltava vomitar com as músicas que eu ouvia. Estarei fazendo algo de errado?
Brinco horas com meus sobrinhos, fico lá mexendo nos games deles e de vez em quando ainda ouço um “nossa, tia, mas você é muito ruim!”. Não me abalo: logo depois já estou disputando sorvete e bolo com a molecada no tapa.
'Magina se os pais da gente se dignavam a brincar conosco!
Adoro cinema e quando vejo estou consumindo coisas que já devia ter deixado de lado faz anos, ridículas, infantis, pueris etc. Homem Aranha. X Men. Batman. Gente, isso é quadrinho... bobagem... coisa de criança! Os enredos têm a profundidade psicológica de um pires! E o Friends, então? Eu adorava o Friends, um seriado cuja piada básica é um bando de trintões se comportando como crianças.
E outra: não posso ver um desses caderninhos da Hello Kitty.
Eu faço piada com tudo. Isso com certeza não é comportamento adulto, sério! Os adultos, na minha época, nunca riam. Estavam sempre preocupados com coisas graves de adultos, às quais nós, crianças, não tínhamos acesso. (hoje, no jardim da infância, os coitados já sabem o que é o PCC...).
Pois aí é que está o problema: na minha época, noventa e nove por cento dos adultos era muito chato. É claro que a gente queria virar adulto pra fazer um monte de coisas legais... mas não queria ficar chato. Será que foi esse o nosso problema?
Devo dizer que a passagem para a idade adulta me decepcionou muito. Promessas maravilhosas da maturidade nunca se realizaram. Por exemplo: meu sonho era crescer para usar perucas que nem as da minha mãe. Usaria uma ruiva de manhã, castanha à tarde e loira à noite. O tempo passou, eu cresci e as perucas, infelizmente, saíram da moda.
Queria ficar adulta pra ver TV até a hora em que quisesse. Mas descobri que na TV só passa porcaria.
Queria ficar adulta para ganhar um monte de dinheiro e ser rica. Sem comentários.
Queria ficar adulta para dirigir um carro. Hoje dirijo, e é um pesadelo: trânsito horrível, gasolina cara, despesas de manutenção, e isso sem falar na culpa por contribuir para o aquecimento global.
É, a gente cresce e descobre que a vida de adulto não é fácil, as recompensas são poucas, as obrigações pesadas etc. E ainda por cima começam a te chamar de “tia”.
Aí o que você faz?
Abre uma página no Orkut.
A propósito: alguém aí quer ser meu friend? Tô precisando chegar nos cem...