Tati Carlotti
Homens de vinte são lindos, trazem ainda o desejo da aventura, as belas paisagens, o corpo liso de uma tarde espreguiçada na areia. Natureza é palavra mágica, capaz de enlouquecer os homens de vinte. Prepare-se: camping, trilhas, cachoeiras. De repente, você sente aquela leveza, o cheiro da estrada, a prancha de surf e sorri quando ele te conta seus projetos artísticos. Conhecer o mundo é objetivo de vida dos homens de vinte, não ria, eles levam a sério. Prepare-se para as grandes emoções, o telefone sempre vai tocar, a qualquer hora. Não fique chateada se ele ligar só para te contar que ficou com uma menina de quinze na noite passada, isso passa e como você tem mais o que fazer, aos poucos vai achar graça dos encontros e desencontros que ele fará questão de te contar em detalhes, com aquele ar de inspetor de seriado americano: “me perdoa, gata?”. Até que um dia, o coração dispara. Pode ser, no melhor dos casos, ali na praia. É que o homem de vinte vai nadar muito longe no mar, para o seu desespero e também do salva-vidas bonitão que vai te olhar com certa malícia, como quem pergunta: o que você está fazendo com esse pirralho? Sim, nesse momento, você vai se pegar de pulseirinha de palha no braço, rabo-de-cavalo, ao lado dos seus mais recentes grandes amigos, um grupo de malucos chapados que estarão há horas assassinando o violão. É fato, você vai sentir uma baita vontade de silêncio, o desejo forte de ouvir por um momento nada além do que o barulho das ondas. Não se levante, mesmo sem crenças, reze para que o garotão retorne são e salvo do fundo do mar. Sorria e tope caminhar até as pedras, mesmo que dê aquela preguiça. Afinal, tirando a família e os exames da faculdade, tudo vai bem ao lado dos homens de vinte. Então, contenha a bronca e derreta-se diante do sorriso bonito. Pague os pedágios da volta e não peça para baixar o som do carro. Cante alto e aproveite, a vida é intensa ao lado deles.
Homens de trinta são mais complexos. Já fizeram terapia e estão em fase permanente de mudança. Você reclamou da leveza dos vinte? Caia na densidade dos trinta. Embora digam que não, eles vão querer coisa séria, por isso, se não te ligarem no dia seguinte, não vai dar em nada, pelo menos nos próximos meses. Homens de trinta oscilam entra a vadiagem eterna e a necessidade de se tornarem homens de verdade. Um conceito inexplicável que você nunca vai entender, mas que cedo ou tarde, traduz-se em profissão, carro, casa e mulher fiel. Sim, não tem jeito, fiel. Terminada a faculdade e diante da primeira perda da inocência (negócio próprio é uma furada, faculdade de Humanas é um beco sem saída, carreiras artísticas não dão dinheiro e para ser um executivo é preciso vestir uma camisa-de-força), não é à toa que homens de trinta parecem sempre cansados. Leve-os para a praia. A barraca de camping será substituída por uma pousada. Chuveiro elétrico, ausência de pernilongos e jazz farão você se sentir no paraíso. Depois de um certo tempo, pizza será a palavra de ordem. Teatro, exposições, cinema também ajudarão a distrair. Se você der sorte e ele tiver um nível cultural bom, vocês vão trocar altas idéias sobre livros e principalmente, sobre projetos concretos da uma pseudo “vida adulta”. Homens de trinta estão preocupados com isso, há uma certa ansiedade, porque o mundo é especialmente cruel para eles, mas não se esqueça, o mundo é cruel para você também, porque ao lado de um homem desses, entre uma cerveja e outra, a pergunta chega: quais os seus projetos? Mesmo em dúvida, você dirá todos eles e ele dirá todos os dele, mas talvez vocês não consigam se escutar direito. Por isso, recomendo um barzinho à meia-luz, uma boa dose de absinto e torradinhas de queijo brie com manjericão, é preciso um clima para rabiscar projetos de vida em guardanapos, mesmo que seja necessário amassá-los depois.
Já os homens de quarenta estão numa encruzilhada. Existem aqueles que conseguiram todas as ambições dos trinta, esses são uns chatos de primeira, fuja. Há os que conseguiram parte dessas ambições e nesse caso, estarão com trabalho, prestação de apartamento e família, repito: família. Se um deles der uma olhada de esguelha para você, é porque está se sentindo um pouco preso, saudades das moças de biquíni dos vinte anos, pânico de acordar com a mesma pessoa até o fim da vida. Ao contrário do que dizem as revistas femininas, os homens de quarenta pensam, portanto, muita ética ao invadir a vida alheia. Aquela ladainha que você dizia para suas amigas malucas, se aplica em doses elevadas aqui. Embora digam que não, eles podem desistir do que construíram e isso não tem nada a ver com você, mas com o grau de insatisfação que carregam dentro de si mesmos. Por isso, cuidado. Caso partam numa viagem para Paraty num fim de semana contigo, as exigências da volta serão altas. E caso não partam, é você quem vai virar uma chata. Confusão é a palavra de ordem com os homens de família aos quarenta, eles vêem em você um grande atalho, mas jamais se esqueça, você não tem nada a ver com isso. Já os últimos, são aqueles que não conseguiram o que desejavam ou os mais espertos, aqueles que se tocaram de que as coisas são como são. Os primeiros são mais amargos e podem ficar durante horas te convencendo a ineficiência do sistema; os segundos são um perigo, ostentam aquela pontada irresistível de tristeza. É que a tomada de consciência de que não há lugar determinado pra ninguém dá um aspecto errante aos homens de quarenta. Mas não se iluda, eles são muito mais alheios do que supõe a sua filosofia de botequim, e não são bobos. Vão te ligar, caso você não os encha muito. Vão te mimar, caso você os mime de volta. E só vão te dar alguma coisa caso recebam algo em troca. Homens de quarenta estarão atentos a você, querem saber que tipo de pessoa você é, mas não se engane, mesmo que digam pouco sobre si mesmos, gostam de saber que estão sendo ouvidos a todo momento. Mudanças bruscas de percurso são inevitáveis, acostume-se, noites da mais pura bobagem e do mais delicioso papo se alternam com a monotonia do trabalho incessante. O vinho impera, os queijos satisfazem, as sopas de madrugada acalentam. E você acredita que pode ser absolutamente você mesma, então, desata a falar mais do que a boca e paciência.
Mas paciência, você só vai aprender a ter com um homem de cinqüenta. Muita calma nessa hora. Homens de cinqüenta são um perigo concreto. Lembre-se de todos os chavões que você já ouviu a respeito dos homens. Eles estarão definitivamente presentes na sua frente. Embora imprevisíveis, homens de cinqüenta são simples: eles só querem te comer. E isso é o máximo, porque você enfim, poderá ser você. Então, você bebe o uísque e até se arrisca a experimentar o charuto. O homem de cinqüenta não estará nem aí para o que você disser. Não vai te idolatrar como os de vinte, nem vai te testar como os de trinta e muito menos te julgar como os de quarenta. O homem de cinqüenta vai te ouvir como se fosse seu melhor amigo. Vai te encantar com as histórias que conhece ou já viveu. Vai te levar para bons restaurantes e te ensinar sobre os temperos indianos, sabores chineses, culinária tailandesa. Homens de cinqüenta vão te aquecer no frio do Chile e soprar seus ombros em Fernando de Noronha. Vão sorrir das suas piadas, mas nunca vão ligar quando você esperar. Isso é fato, eles só ligarão quando quiserem transar. Motel é a palavra de ordem. E o mais perigoso, o sexo é bom. Homens de cinqüenta não possuem mais a leveza dos vinte, há peso no toque deles. Homens de cinqüenta não tem mais paciência para as questões existenciais dos trinta, não vão discutir absolutamente nada depois. Homens de cinqüenta não cometem as loucuras dos homens de quarenta, embora te façam acreditar que possam cometê-las. Homens de cinqüenta querem viver a vida e a liberdade que conquistam nas horas vagas e fazem questão de mostrar que ainda são bons amantes. O único problema é que eles amam a diversidade. Há uma insaciedade no olhar dos homens de cinqüenta, o que não impede, de forma alguma, que eles se deitem no seu colo atrás de cafuné um dia desses. Mas nunca se esqueça, cafuné é tudo o que um homem de cinqüenta quer de você, depois do sexo, é claro.
Então chegamos aos homens de sessenta ou mais, dependendo do caso. Esses nunca te levarão a sério, desista. Vão te olhar como se você tivesse quinze anos, é inevitável. Mas não se ofenda, você realmente terá quinze anos diante de um homem desses. Ao contrário dos homens de cinqüenta, não estarão preocupados em te mostrar as belezas da vida, vez ou outra é que deixam escapar uma história só para testar se você está realmente atenta. Homens de sessenta são vaidosos, o mundo gira em torno deles e você funcionará sempre, quando estiverem inseguros em relação a si mesmos, como prova concreta do poder que ainda possuem. Mas acredite, você não vai se importar com isso, nem eles. Porque os homens de sessenta são verdadeiros ladrões de bons momentos. Eles te mostrarão o prazer sem muitas palavras e embora saibam muito mais do que você, vão te olhar como se você fosse um ser de outro planeta e te acharão sempre muito maluca, afinal, se você fosse uma moça normal, não estaria saindo com alguém tão mais velho. Eterna Lolita, sua presença será bem acolhida, doçura para as tardes de angústia íntima, mas sempre muito raras, só quando estiverem ociosos demais, porque homens de sessenta têm sempre algo urgente para fazer. E quando vierem atrás de bons momentos, eles saberão te dar, caso você aja exatamente como esperam que você aja, boas lembranças. Mas saiba de antemão, eles não possuem nenhuma paciência para as suas crises existenciais e muito menos, crises de recato. Eles querem sensações, são mais vorazes do que os homens de cinqüenta, embora disfarcem a fome com doçura. Homens de sessenta jamais vão te ligar, nem se quiserem; eles esquecem. É certo que vão largar seu número em agendas antigas e vão te deixar deslizar como chuva de verão pelas suas vidas. Então, certo dia, você vai se perguntar: o que esse cara quer? E vai descobrir que homens de sessenta não querem absolutamente nada contigo. Eles te deixarão disponível para quem sabe um dia. Primeiro, porque realmente não precisam de você, suas vidas estão mais do que completas. Segundo, porque mesmo se precisassem, você não valeria um centavo, nessa altura do campeonato.
segunda-feira, julho 24, 2006
terça-feira, julho 18, 2006
PEGADAS NA AREIA
Não se iludam, crianças: em pleno século 21, o Brasil continua sendo um país autoritário ao velho estilo. É cada um no lugarzinho que a sociedade determinou, e ai de quem tentar sair. (Principalmente se a tentativa for coletiva; individual, eles até perdoam). E uma das formas mais simples de preservar esse estado de coisas é apagar a memória, o passado das pessoas. Apagar sua identidade.
Tô cheia de amigos queridos, pessoas excelentes aliás, que pensam que estão vivendo numa versão pobre de Nova York, com legendas traduzidas, sei lá. Os caras não têm a menor idéia do que significa ser brasileiro. Já leram a obra completa do Bukowski, mas nem passaram perto do Lima Barreto.
E se não tem idéia da sua própria identidade, que dirá da dos seus antepassados.
Aqui em São Paulo, de forma geral, as pessoas chegaram de duas formas: ou no pau-de-arara, ou nos navios de imigrantes. Quem não é descendente de nordestinos, é de italiano. Ou de árabe, espanhol, português etc. Isso se não for de família quatrocentona: alguém aí é? No início do século 20, se falava mais italiano do que português nesta cidade...
Mas o Brasil, se por um lado ofereceu um novo lar a esses imigrantes, por outro lado passou sua identidade no liquidificador. Hoje, as pessoas já esqueceram essas histórias. Apagaram a memória dos avós ou bisavós que chegaram aqui com uma mão atrás e outra na frente, e deram duro para proporcionar aos seus filhos uma vida um pouco melhor.... E esse apagamento acontece com uma velocidade impressionante.
Uma vez fui fazer uma matéria sobre imigração com duas professoras que eram filhas – eu disse FILHAS - de libaneses. Elas davam aula num colégio de Estado. Gente, vou contar uma coisa: até hoje estou com raiva dessas duas. Como diria a minha irmã, elas não sabiam nem a hora da janta.
Onde vocês moravam, lá no Líbano? “Ah, numa aldeia aí... Não sei direito o nome...” E o que os seus avós faziam lá? “Ah, a gente não tem idéia...”. E por que vieram pra cá? “Sei lá... A gente não sabe essas histórias... Não somos muito de cultuar o passado, sabe?”.
Cultuar o passado. Eu tinha excursionado até Carapicuíba para entrevistar duas antas diplomadas que não “cultuavam o passado”, ou seja, não tinham a mínima idéia de onde vinham nem de quem eram. E elas eram professoras. Ensinavam crianças que provavelmente também aprenderiam a não “cultuar o passado”, ou seja, a apagar a sua História, desistir da sua identidade, e comprar a idéia de que tanto faz ter nascido aqui como em Nova York. Afinal, dá tudo na mesma. O mundo globalizado é um só e as gentes também. Ninguém tem identidade, ninguém tem antepassados ou história de família. Ninguém é ninguém. Com sorte, quem sabe não vira uma griffe?
Todo esse desabafo só para contar que, nesse fim-de-semana, estive no Museu da Imigração, lá no Brás; e que ali, recuperei a história de um italiano que veio para o Brasil.
Ele se chamava Ângelo Diana. Praticamente inaugurou a Hospedaria dos Imigrantes: chegou em 1888, e a Hospedaria, destinada a acolher o pessoal que vinha trabalhar nas fazendas da elite cafeeira, ficou pronta em 1887. Chegou sozinho, sem família, proveniente de Udine, na Itália. Ao que tudo indica, veio com a roupa do corpo, cansado da polenta da terra natal (dieta única dos camponeses italianos, naquela época). Reza a lenda familiar que embarcou clandestino, entrando num barril de vinho vazio. Veio fugindo de uma guerra colonial estúpida, e do destino de virar bucha de canhão.
Ângelo tinha dezenove anos. Era meu bisavô.
Ao contrário das professoras de Carapicuíba que “não cultuam” o passado, descendo de uma família de orgulhosos ítalo-caipiras que cultuou o seu por quatro gerações. Já estamos passando a história do Ângelo para seus trisnetos. Mas como uma família tão grande e tão espalhada conserva seu passado? Simples: pela tradição oral.
De uns tempos para cá, vários descendentes do Ângelo começaram a pesquisar e procurar suas raízes. É uma procura desinteressada: ninguém, até onde eu saiba, quer virar cidadão italiano. A gente não é mais italiano, é brasileiro. Mas queremos ser brasileiros que se conhecem, que sabem de onde vêm, e que talvez assim, quem sabe, tenham uma idéia de para onde vão!
Tenho RG, CPF e passaporte que me identificam como cidadã brasileira, nascida em Sorocaba, no Estado de São Paulo. No sábado, ganhei mais um documento: um certificado de passagem do meu bisavô pela Hospedaria dos Imigrantes.
Este documento é meu. Meu e da minha avó Conceição, que nunca pôde vê-lo. Meu e da minha mãe. Meu e de meus irmãos. Meu e da Marília, minha filha; do Gabriel, meu sobrinho; e de todos os meus outros sobrinhos e primos.
Dá pra sentir o valor desse papel?
No mesmo dia em que cheguei lá, várias pessoas passaram pelo escritório da Dona Midori, uma simpática funcionária que localizou rapidamente meu bisavô naquela massa imensa de imigrantes que passou por lá. Provavelmente o avô ou bisavô de Dona Midori também passou por lá um dia: pobre, faminto, destituído, deslocado num país estrangeiro, sozinho ou com a filharada atrás.
Poucas vezes vi tanta gente saindo de uma repartição do governo com uma cara tão feliz. Velhos e moços, todos exibiam orgulhosamente seu certificado, mostravam pros filhos, e recuperavam sua História.
Com dois reais vocês entram nesse lugar. Mais dez, e saem de lá com um pedaço importante da sua identidade. Mesmo nesses tempos de pouca grana, vale cada centavo. Porque ninguém, absolutamente ninguém, nasceu por geração espontânea. Ninguém é produto, griffe nem marca.
Somos, isso sim, seres humanos mergulhados na História.
Tô cheia de amigos queridos, pessoas excelentes aliás, que pensam que estão vivendo numa versão pobre de Nova York, com legendas traduzidas, sei lá. Os caras não têm a menor idéia do que significa ser brasileiro. Já leram a obra completa do Bukowski, mas nem passaram perto do Lima Barreto.
E se não tem idéia da sua própria identidade, que dirá da dos seus antepassados.
Aqui em São Paulo, de forma geral, as pessoas chegaram de duas formas: ou no pau-de-arara, ou nos navios de imigrantes. Quem não é descendente de nordestinos, é de italiano. Ou de árabe, espanhol, português etc. Isso se não for de família quatrocentona: alguém aí é? No início do século 20, se falava mais italiano do que português nesta cidade...
Mas o Brasil, se por um lado ofereceu um novo lar a esses imigrantes, por outro lado passou sua identidade no liquidificador. Hoje, as pessoas já esqueceram essas histórias. Apagaram a memória dos avós ou bisavós que chegaram aqui com uma mão atrás e outra na frente, e deram duro para proporcionar aos seus filhos uma vida um pouco melhor.... E esse apagamento acontece com uma velocidade impressionante.
Uma vez fui fazer uma matéria sobre imigração com duas professoras que eram filhas – eu disse FILHAS - de libaneses. Elas davam aula num colégio de Estado. Gente, vou contar uma coisa: até hoje estou com raiva dessas duas. Como diria a minha irmã, elas não sabiam nem a hora da janta.
Onde vocês moravam, lá no Líbano? “Ah, numa aldeia aí... Não sei direito o nome...” E o que os seus avós faziam lá? “Ah, a gente não tem idéia...”. E por que vieram pra cá? “Sei lá... A gente não sabe essas histórias... Não somos muito de cultuar o passado, sabe?”.
Cultuar o passado. Eu tinha excursionado até Carapicuíba para entrevistar duas antas diplomadas que não “cultuavam o passado”, ou seja, não tinham a mínima idéia de onde vinham nem de quem eram. E elas eram professoras. Ensinavam crianças que provavelmente também aprenderiam a não “cultuar o passado”, ou seja, a apagar a sua História, desistir da sua identidade, e comprar a idéia de que tanto faz ter nascido aqui como em Nova York. Afinal, dá tudo na mesma. O mundo globalizado é um só e as gentes também. Ninguém tem identidade, ninguém tem antepassados ou história de família. Ninguém é ninguém. Com sorte, quem sabe não vira uma griffe?
Todo esse desabafo só para contar que, nesse fim-de-semana, estive no Museu da Imigração, lá no Brás; e que ali, recuperei a história de um italiano que veio para o Brasil.
Ele se chamava Ângelo Diana. Praticamente inaugurou a Hospedaria dos Imigrantes: chegou em 1888, e a Hospedaria, destinada a acolher o pessoal que vinha trabalhar nas fazendas da elite cafeeira, ficou pronta em 1887. Chegou sozinho, sem família, proveniente de Udine, na Itália. Ao que tudo indica, veio com a roupa do corpo, cansado da polenta da terra natal (dieta única dos camponeses italianos, naquela época). Reza a lenda familiar que embarcou clandestino, entrando num barril de vinho vazio. Veio fugindo de uma guerra colonial estúpida, e do destino de virar bucha de canhão.
Ângelo tinha dezenove anos. Era meu bisavô.
Ao contrário das professoras de Carapicuíba que “não cultuam” o passado, descendo de uma família de orgulhosos ítalo-caipiras que cultuou o seu por quatro gerações. Já estamos passando a história do Ângelo para seus trisnetos. Mas como uma família tão grande e tão espalhada conserva seu passado? Simples: pela tradição oral.
De uns tempos para cá, vários descendentes do Ângelo começaram a pesquisar e procurar suas raízes. É uma procura desinteressada: ninguém, até onde eu saiba, quer virar cidadão italiano. A gente não é mais italiano, é brasileiro. Mas queremos ser brasileiros que se conhecem, que sabem de onde vêm, e que talvez assim, quem sabe, tenham uma idéia de para onde vão!
Tenho RG, CPF e passaporte que me identificam como cidadã brasileira, nascida em Sorocaba, no Estado de São Paulo. No sábado, ganhei mais um documento: um certificado de passagem do meu bisavô pela Hospedaria dos Imigrantes.
Este documento é meu. Meu e da minha avó Conceição, que nunca pôde vê-lo. Meu e da minha mãe. Meu e de meus irmãos. Meu e da Marília, minha filha; do Gabriel, meu sobrinho; e de todos os meus outros sobrinhos e primos.
Dá pra sentir o valor desse papel?
No mesmo dia em que cheguei lá, várias pessoas passaram pelo escritório da Dona Midori, uma simpática funcionária que localizou rapidamente meu bisavô naquela massa imensa de imigrantes que passou por lá. Provavelmente o avô ou bisavô de Dona Midori também passou por lá um dia: pobre, faminto, destituído, deslocado num país estrangeiro, sozinho ou com a filharada atrás.
Poucas vezes vi tanta gente saindo de uma repartição do governo com uma cara tão feliz. Velhos e moços, todos exibiam orgulhosamente seu certificado, mostravam pros filhos, e recuperavam sua História.
Com dois reais vocês entram nesse lugar. Mais dez, e saem de lá com um pedaço importante da sua identidade. Mesmo nesses tempos de pouca grana, vale cada centavo. Porque ninguém, absolutamente ninguém, nasceu por geração espontânea. Ninguém é produto, griffe nem marca.
Somos, isso sim, seres humanos mergulhados na História.
terça-feira, julho 11, 2006
AMOR, SUBLIME AMOR
Eu te amo, minha querida (o). Te amo loucamente. Você é tudo que busquei em minha vida. Agora que te encontrei, ficaremos juntos para sempre.
Meu amor por você não tem limites. Nem deve ter. Como você sabe, o amor entre um homem e uma mulher, ou até – sejamos tolerantes – entre um homem e outro homem – é o sentimento mais nobre e elevado que existe. O que seria do mundo, sem o casal monogâmico? Essa é a unidade mais importante da sociedade em que vivemos.
O bem-estar do casal passa por cima de tudo, minha querida. Aprenda. Porque, afinal, o amor é o sentimento mais nobre e elevado de todos, e tem precedência em relação a todos os outros afetos. Não é?
Amor aos pais? Aos filhos? Tudo isto é secundário, meu bem. Pra quê você pensa que inventaram asilos e creches?
Amigos? Bem, se tiver um tempinho para dedicar a eles... mas lembre-se, não pode faltar nada para mim.
Somos importantes. Somos centrais. Você já pensou no valor que temos, por exemplo, para a economia do país? Sustentamos fábricas de shampoo, de maquiagem, de roupas, de chocolate, e nem falemos nas floriculturas! Sem nós, do que falariam os compositores, poetas e dramaturgos? Quem compraria os apartamentos quarto-e-sala do setor de construção? Quem iria adquirir os pacotes turísticos para destinos românticos? Veja só, amor, como somos importantes.
Te amo loucamente, e meu amor não tem limites... mas você deve ter alguns.
Por exemplo:
Como te amo muito, gostaria que você dedicasse todos os seus momentos livres a mim.
Que nem desviasse os seus olhos de mim.
Que estivesse sempre disponível.
Que não tivesse outros interesses importantes, além de mim.
Que não crescesse em outras direções.
Que me acolhesse sempre com um sorriso nos lábios.
Que me ligasse várias vezes por dia, para que eu tivesse certeza do teu amor.
Que só tivesse amigos (os) muito feios (as) e, de preferência, desinteressantes.
Que só saísse comigo, e sempre fazendo aqueles programas que eu gosto.
Que não ficasse olhando para outros homens (mulheres) nunca, nem que estivesse apenas apreciando sua beleza.
Que me presenteasse no aniversário, dia dos Namorados, Natal e talvez até Ano Novo, por que não? Lembre-se, precisamos movimentar a economia.
Que adivinhasse exatamente o que estou pensando.
Que me acalmasse quando eu estivesse com medo.
Que nunca me desse um momento de insegurança.
E naturalmente, como você me ama, não vai se importar se eu:
- Ligar várias vezes no celular, só pra saber onde você está;
- Ouvir suas conversas na extensão. Não de propósito, é claro, mas às vezes acidentes acontecem, sabe como é. E a curiosidade é natural no homem (ou na mulher);
- Bisbilhotar nos seus guardados e escritos;
- Achar a senha do seu correio eletrônico e ler os seus e-mails;
- Checar com sua mãe se você foi mesmo visitá-la;
- Proibir que você tire férias sozinha (o). Não que eu desconfie de você, minha (meu) querida (o); mas veja bem, quando se ama, é melhor fugir das tentações...
- Abandonar a amizade com aquela moça (ou rapaz) solteira (a), que francamente, é um tanto liberal demais, nem é boa companhia pra você;
- Visitá-la (o) no seu trabalho de imprevisto, só para surpreendê-la (o). Tenho certeza que você vai ficar contente... e eu, é claro, aproveito para checar se existe algum colega especial no pedaço;
- Dar uma olhadinha, como não quer nada, no bolso do seu casaco...
Tenho certeza que você não vai se importar com nada disso, meu amor. É normal, quando se ama. Amor é isso. Suas (seus) amigas (os) vão até felicitá-la (o), quando você contar essa história. Eles (as) dirão que eu tenho ciúmes. Ciúmes é prova do amor. É porque te amo que te vigio, que te sigo na rua, que olho teus guardados, que escuto tuas conversas. Porque te amo, descobri o método mais perfeito de assegurar o nosso amor: te infernizar em todos os minutos da tua vida. Assim você verá, sem sombra de dúvida, que eu te amo muito.
E se nada disso resolver, bem...
Sabe, tenho muitos métodos de demonstrar meu amor.
Meu amor por você não tem limites. Nem deve ter. Como você sabe, o amor entre um homem e uma mulher, ou até – sejamos tolerantes – entre um homem e outro homem – é o sentimento mais nobre e elevado que existe. O que seria do mundo, sem o casal monogâmico? Essa é a unidade mais importante da sociedade em que vivemos.
O bem-estar do casal passa por cima de tudo, minha querida. Aprenda. Porque, afinal, o amor é o sentimento mais nobre e elevado de todos, e tem precedência em relação a todos os outros afetos. Não é?
Amor aos pais? Aos filhos? Tudo isto é secundário, meu bem. Pra quê você pensa que inventaram asilos e creches?
Amigos? Bem, se tiver um tempinho para dedicar a eles... mas lembre-se, não pode faltar nada para mim.
Somos importantes. Somos centrais. Você já pensou no valor que temos, por exemplo, para a economia do país? Sustentamos fábricas de shampoo, de maquiagem, de roupas, de chocolate, e nem falemos nas floriculturas! Sem nós, do que falariam os compositores, poetas e dramaturgos? Quem compraria os apartamentos quarto-e-sala do setor de construção? Quem iria adquirir os pacotes turísticos para destinos românticos? Veja só, amor, como somos importantes.
Te amo loucamente, e meu amor não tem limites... mas você deve ter alguns.
Por exemplo:
Como te amo muito, gostaria que você dedicasse todos os seus momentos livres a mim.
Que nem desviasse os seus olhos de mim.
Que estivesse sempre disponível.
Que não tivesse outros interesses importantes, além de mim.
Que não crescesse em outras direções.
Que me acolhesse sempre com um sorriso nos lábios.
Que me ligasse várias vezes por dia, para que eu tivesse certeza do teu amor.
Que só tivesse amigos (os) muito feios (as) e, de preferência, desinteressantes.
Que só saísse comigo, e sempre fazendo aqueles programas que eu gosto.
Que não ficasse olhando para outros homens (mulheres) nunca, nem que estivesse apenas apreciando sua beleza.
Que me presenteasse no aniversário, dia dos Namorados, Natal e talvez até Ano Novo, por que não? Lembre-se, precisamos movimentar a economia.
Que adivinhasse exatamente o que estou pensando.
Que me acalmasse quando eu estivesse com medo.
Que nunca me desse um momento de insegurança.
E naturalmente, como você me ama, não vai se importar se eu:
- Ligar várias vezes no celular, só pra saber onde você está;
- Ouvir suas conversas na extensão. Não de propósito, é claro, mas às vezes acidentes acontecem, sabe como é. E a curiosidade é natural no homem (ou na mulher);
- Bisbilhotar nos seus guardados e escritos;
- Achar a senha do seu correio eletrônico e ler os seus e-mails;
- Checar com sua mãe se você foi mesmo visitá-la;
- Proibir que você tire férias sozinha (o). Não que eu desconfie de você, minha (meu) querida (o); mas veja bem, quando se ama, é melhor fugir das tentações...
- Abandonar a amizade com aquela moça (ou rapaz) solteira (a), que francamente, é um tanto liberal demais, nem é boa companhia pra você;
- Visitá-la (o) no seu trabalho de imprevisto, só para surpreendê-la (o). Tenho certeza que você vai ficar contente... e eu, é claro, aproveito para checar se existe algum colega especial no pedaço;
- Dar uma olhadinha, como não quer nada, no bolso do seu casaco...
Tenho certeza que você não vai se importar com nada disso, meu amor. É normal, quando se ama. Amor é isso. Suas (seus) amigas (os) vão até felicitá-la (o), quando você contar essa história. Eles (as) dirão que eu tenho ciúmes. Ciúmes é prova do amor. É porque te amo que te vigio, que te sigo na rua, que olho teus guardados, que escuto tuas conversas. Porque te amo, descobri o método mais perfeito de assegurar o nosso amor: te infernizar em todos os minutos da tua vida. Assim você verá, sem sombra de dúvida, que eu te amo muito.
E se nada disso resolver, bem...
Sabe, tenho muitos métodos de demonstrar meu amor.
terça-feira, julho 04, 2006
DEIXA QUE EU CHUTO
Domingo à noite meu pai me telefonou pra comentar os últimos acontecimentos.
Coitado de papai. Meu irmão está fora do Brasil, e não dá pra gastar horas de telefonema internacional xingando o Parreira. Com o povo lá de Bauru ele já deve ter esgotado o assunto. Enfim, o homem estava tão desesperado na sua indignação, que até em mim ele pensou para desabafar.
Não entendo picirica de futebol. Nesse ponto sou uma moça tradicional: não sei o que é tiro de meta, vivo perguntando o que é um zagueiro (e assim que me explicam, esqueço a resposta), e de forma geral não entendo todo esse entusiasmo por vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola. Sorry, pessoal, mas é assim que eu sou. No meu tempo não era considerado feminino mulher se interessar por futebol. Hoje elas entendem até mais que os homens, têm coluna em jornal, são repórteres da área... Até jogar a mulherada joga, né? E eu aqui, nessa ignorância. Só me interesso pelo assunto na época da Copa do Mundo. Aí, sim, aí rola um certo patriotismo, eu curto a festa toda... fico triste, inclusive, que tenha terminado tão cedo.
Meu pai começou a conversa dizendo que o Brasil não jogou nada e mereceu tomar na cabeça:
- Você viu que jogo feio, Maria Dóris? (é assim que ele me chama, pessoal. Pior ainda: é oque está escrito no meu RG).
- Horrível, pai, horrível! (me lembrei dos comentários que tinha ouvido na TV, depois da partida). O time não sabia jogar em conjunto, eram só jogadas individuais...
- Uma vergonha! Um absurdo! O Parreira não sabe montar um time, pô! Você via uma ou outra jogada individual, mas o resto... não sabiam nem tocar a bola!
- Pois é...
- Também, tem o seguinte: o Parreira não comanda a escalação do time. Na minha opinião, ele não escala quem quer.
- É mesmo, pai?
- Você tem alguma dúvida? Veja bem (meu pai dificilmente começa uma frase sem “veja bem”), jogadores como o Ronaldo, o Ronaldinho, o Roberto Carlos ou o Kaká têm esses contratos milionários de propaganda. Essas empresas financiam a Seleção, também. Você acha que não pressionam para manter o jogador em campo? É óbvio!
- Evidente, pai! (se ele fala, deve ser verdade... afinal, ele tem setenta e dois anos nas costas e é fanático por futebol...) Tá na cara... são interesses financeiros!
- Os franceses nem tinham tanto time assim!
- É... realmente... quer dizer, tinhamo Zidane, né? (todo mundo fala que o Zidane é um craque; portanto, deve ser).
- Sim, tinha o Zidane e o tal do Henry, no máximo.
- Henry?
- O cara que fez o gol!
(O gol... puxa, saiu bem na hora em que fui estourar pipoca. Também aproveitei pra alimentar o gato, e...)
- Ah, claro, claro, o cara que fez o gol! Me lembro agora.
- Mas a gente tinha muito mais time.
Aproveitei para colocar uma opinião ousada e original:
- Sabe, pai, acho que alguns jogadores foram injustiçados pela imprensa. Por exemplo, o Ronaldinho. Ele nem jogou tão mal assim.
(Eu sei lá se o Ronaldinho jogou bem ou mal... Ele corria bastante de um lado pro outro, né? Então, devia estar jogando bem! Pelo menos se esforçava. E ele é tão simpático e sorridente, com aqueles dentões pra fora... Outro que é simpático é o Robinho. Já o Ronaldo acho meio convencido, ele e aquela sua namorada lambisgóia...)
- É, mas que adianta, se não tem pra quem passar a bola?
- É, realmente, faltou um jogo de conjunto...
(Epa, peraí, isso eu já falei antes.)
Enfim, conversamos mais um pouco, meu pai desabafou à vontade e desligou aliviado. E eu? Fiquei mais aliviada ainda. Durante quatro anos, não vou precisar fingir que entendo de futebol. Posso continuar feliz com a minha burrice, e com as dúvidas que me perseguem, Copa após Copa, desde 1970.
Quem sabe alguém, um dia, me explique o que é tiro de meta. Seria um favor. Mesmo se, até 2010, eu já tiver esquecido de novo.
Coitado de papai. Meu irmão está fora do Brasil, e não dá pra gastar horas de telefonema internacional xingando o Parreira. Com o povo lá de Bauru ele já deve ter esgotado o assunto. Enfim, o homem estava tão desesperado na sua indignação, que até em mim ele pensou para desabafar.
Não entendo picirica de futebol. Nesse ponto sou uma moça tradicional: não sei o que é tiro de meta, vivo perguntando o que é um zagueiro (e assim que me explicam, esqueço a resposta), e de forma geral não entendo todo esse entusiasmo por vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola. Sorry, pessoal, mas é assim que eu sou. No meu tempo não era considerado feminino mulher se interessar por futebol. Hoje elas entendem até mais que os homens, têm coluna em jornal, são repórteres da área... Até jogar a mulherada joga, né? E eu aqui, nessa ignorância. Só me interesso pelo assunto na época da Copa do Mundo. Aí, sim, aí rola um certo patriotismo, eu curto a festa toda... fico triste, inclusive, que tenha terminado tão cedo.
Meu pai começou a conversa dizendo que o Brasil não jogou nada e mereceu tomar na cabeça:
- Você viu que jogo feio, Maria Dóris? (é assim que ele me chama, pessoal. Pior ainda: é oque está escrito no meu RG).
- Horrível, pai, horrível! (me lembrei dos comentários que tinha ouvido na TV, depois da partida). O time não sabia jogar em conjunto, eram só jogadas individuais...
- Uma vergonha! Um absurdo! O Parreira não sabe montar um time, pô! Você via uma ou outra jogada individual, mas o resto... não sabiam nem tocar a bola!
- Pois é...
- Também, tem o seguinte: o Parreira não comanda a escalação do time. Na minha opinião, ele não escala quem quer.
- É mesmo, pai?
- Você tem alguma dúvida? Veja bem (meu pai dificilmente começa uma frase sem “veja bem”), jogadores como o Ronaldo, o Ronaldinho, o Roberto Carlos ou o Kaká têm esses contratos milionários de propaganda. Essas empresas financiam a Seleção, também. Você acha que não pressionam para manter o jogador em campo? É óbvio!
- Evidente, pai! (se ele fala, deve ser verdade... afinal, ele tem setenta e dois anos nas costas e é fanático por futebol...) Tá na cara... são interesses financeiros!
- Os franceses nem tinham tanto time assim!
- É... realmente... quer dizer, tinhamo Zidane, né? (todo mundo fala que o Zidane é um craque; portanto, deve ser).
- Sim, tinha o Zidane e o tal do Henry, no máximo.
- Henry?
- O cara que fez o gol!
(O gol... puxa, saiu bem na hora em que fui estourar pipoca. Também aproveitei pra alimentar o gato, e...)
- Ah, claro, claro, o cara que fez o gol! Me lembro agora.
- Mas a gente tinha muito mais time.
Aproveitei para colocar uma opinião ousada e original:
- Sabe, pai, acho que alguns jogadores foram injustiçados pela imprensa. Por exemplo, o Ronaldinho. Ele nem jogou tão mal assim.
(Eu sei lá se o Ronaldinho jogou bem ou mal... Ele corria bastante de um lado pro outro, né? Então, devia estar jogando bem! Pelo menos se esforçava. E ele é tão simpático e sorridente, com aqueles dentões pra fora... Outro que é simpático é o Robinho. Já o Ronaldo acho meio convencido, ele e aquela sua namorada lambisgóia...)
- É, mas que adianta, se não tem pra quem passar a bola?
- É, realmente, faltou um jogo de conjunto...
(Epa, peraí, isso eu já falei antes.)
Enfim, conversamos mais um pouco, meu pai desabafou à vontade e desligou aliviado. E eu? Fiquei mais aliviada ainda. Durante quatro anos, não vou precisar fingir que entendo de futebol. Posso continuar feliz com a minha burrice, e com as dúvidas que me perseguem, Copa após Copa, desde 1970.
Quem sabe alguém, um dia, me explique o que é tiro de meta. Seria um favor. Mesmo se, até 2010, eu já tiver esquecido de novo.
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