terça-feira, agosto 01, 2006

OH LlNDA IMAGEM DE MULHER QUE ME SEDUZ...


Dóris Fleury

Domingo à noite, maior chuva, maior frio, zero de coragem pra sair. Aqui em casa, ficamos na velha dupla TV & Sofá. No canal da TV paga Warner, passava um seriado chamado The L Word. 'Cês já viram? É uma história de lésbicas californianas que não fazem nada na vida, só passeiam de um lado pro outro, enchem a cara, fofocam e namoram. Assim que desliguei a televisão, meu marido decretou:

- Olha. Não é machismo da minha parte não. Mas achei esse seriado muito ruim! Ô roteiro fraquinho! Não acontece nada...

E o pior é que ele tinha razão, o seriado estava chato. Piorou desde a última temporada. Claro que sempre tem uma pegação das meninas pra esquentar o clima. Mas acaba caindo nos clichês do sexo heterossexual na telinha, ou seja: respiração ofegante, corpos suados, e muitas caras e bocas para a câmera.

No L World, todas as personagens são lindas. Sejamos sinceras: se a Jeniffer Beals me passasse uma cantada, eu repensaria seriamente minha opção sexual! Sejamos politicamente incorretas: cadê as lésbicas feias e caídas? Não aparece nenhuma! É a Terra da Fantasia GLS.

Mas tudo bem, eu gosto do seriado mesmo assim. Mil vezes isso que ligar a TV aberta e ver as personagens femininas das novelas e filmes que eles passam. Normalmente, quando eu zapo nesses canais, as mulheres estão:

a. tirando a roupa;

b. ou se debulhando em lágrimas;

c. ou levando porrada.

Explico: nas novelas, as mais novinhas e bonitas SÓ PENSAM NAQUILO. E SÓ FAZEM AQUILO. Chega uma hora que fica meio fake, né, porque elas nem têm tempo pra estudar, trabalhar, dar uma volta, tomar um cafezinho, nada!

Já as mais velhas estão sempre numa situação tristíssima. Elas são chifradas pelo marido, perseguidas pela sogras, assediadas pelo patrão... não é à-toa que choram! Umas histórias cabulosas. E aquelas que perdem o filho na maternidade? Nossa Senhora da Achiropita! Quando encontram o fedelho, vinte anos depois, não tem Sabesp que dê conta!

Isso nas novelas. Em filme policial, elas levam porrada, são esfaqueadas, estripadas, assassinadas por serial killers etc. Funciona assim: quando o roteirista percebe que a coisa está meio parada, tchum! espanca ou mata uma mulher, que é sempre mais dispensável que homem. Violência contra a mulher é sexy!

A TV paga não é nenhuma maravilha, mas lá, de vez em quando, você vê mulher fazendo coisas diferentes. Por exemplo: tem um seriado aí que a Geena Davis é presidenta dos Estados Unidos. Eu pessoalmente acho que tanto faz o presidente dos EUA usar terno ou tailleur, é tudo a mesma nheca. Mas é sempre uma variação, concordam?

A Geena Davis, além de presidir a nação e usar uns tailleurzinhos muito sem-graça, também tem que cuidar do marido, dos filhos e da mãe que é meio maluquete. Nos primeiros episódios ela até fazia o breakfast com ovos e bacon pra família; agora encontraram alguém pra essa função ingrata (o Ministro da Agricultura, provavelmente...)

Muito mais interessante é o seriado em que a Patricia Arquette faz o papel de uma médium que ajuda a polícia a resolver casos complicados. E, olha, é mais realista que a história da presidenta!

O marido da médium poderosa é um fofo, ajuda em tudo. Eles têm três filhas e às vezes o rapaz fica bravo porque a Patricia Arquette some para resolver seus casos; ou esquece as compras no supermercado, porque teve uma visão na seção de laticínios. É fogo ser casado com médium. Mas o legal é que a Patricia é uma mãe de verdade, que aparece fazendo coisas de mãe: respira fundo pra agüentar as malcriações da filha adolescente, espreme o orçamento pra comprar roupas, leva a menorzinha na escola ou no médico...

Sabe aquela tarefa que não acaba nunca mais: criar filhos? Aquela coisa que exige a criatividade de um artista, a capacidade de improvisação de um performer, e a calma de um monge tibetano? Pois é, tudo isso aparece no seriado. Viva!

Querem saber, eu acho que criar filhos é muito mais difícil do que perseguir serial killer. Ou perder o nenê na maternidade.

Tem também aquele seriado bárbaro, o Desperate Housewives, que todo mundo adora e não é à-toa. É super bem-feitinho, tem personagens multifacetadas, nem boas nem ruins: mulheres comuns. E revelou ótimas atrizes! Sorte delas, porque estavam entrando naquela faixa etária onde existe mais vida feminina em Hollywood...

Uma das housewives é uma moça que tem quatro filhos, um mais terrível que o outro, ninguém merece! mas ela enfrenta o desafio numa boa. Arranja um emprego, vai trabalhar e logo faz uma reivindicação revolucionária: eu quero uma creche!

Que novidade! Até agora, na TV e no cinema, as mulheres que trabalhavam estavam sempre lindas, impecáveis, sem manchinhas de leite regurgitado na lapela. Nunca precisavam ficar penduradas no telefone com a empregada, nem morrendo de preocupação porque deixaram o filho doente em casa. Gente: isso não é o mundo real.

Aí os luminares da comunicação afirmam que o público não gosta do mundo real, e sim de fantasia. Pode até ser verdade: a gente quer é fantasia. Mas por que não uma fantasia com personagens mais variados, mais complexos, mais profundos do que os clichês de mulher que andam por aí?

Nossas filhas assistem TV. Vocês não gostariam que elas soubessem que existem outras opções na vida, além de tirar a roupa, chorar ou levar porrada?

Eu gostaria.




terça-feira, julho 25, 2006

PEQUENAS DESILUSÕES

Dóris Fleury

Não, não são apenas as grandes decepções que machucam. É triste ver, por exemplo, o Lula finalmente assumir o poder e fazer essa merda de governo. É muito triste também – como vem acontecendo com vários amigos – escolher uma faculdade por vocação, se matar de estudar, ganhar o diploma e, anos depois, verificar que não consegue ganhar a vida com aquela profissão. E as decepções amorosas então? O fim do casamento, os problemas com os filhos, a velhice dos pais... Tudo isso é muito triste, de fato. Mas também contam as pequenas decepções; aquelas que pouco a pouco, inapelavelmente, vão nos tirando a inocência infantil, e a crença em algum tipo de justiça nesse mundo. Por exemplo, você acha justo que...
.... Papai Noel não exista?
... seus pais tenham encomendado um novo bebê?
... as bonecas não cresçam cabelos de novo, depois que a gente cortou os originais?
... seu pai tenha ajudado você com a lição, e a professora te dado zero?
... seu jogador de futebol predileto se revele um chato que recusa autógrafos?
... sua professora mais legal abandone a classe para se casar?
... aquele creme anti-espinhas não funcione?
... o delicioso primeiro pilequinho seja seguido por uma ressaca fenomenal?
... os professores da faculdade, que você imaginava uns luminares, se revelem burocratas medíocres?
... o namorado que você adorava tenha te abandonado pela mulher mais chata da faculdade?
... aquele cara fabuloso com quem você passou uma noite, e que parecia tão entusiasmado, nunca mais te telefone?
... o estágio que você arrumou com tanto esforço seja uma bela porcaria onde você fica servindo café ou, no máximo, navegando no Orkut?
.... aquele chefe que você respeitava te passe uma cantada?
... a entrevista do emprego promissor desemboque num questionário sobre sua vida pessoal, incluindo a famosa pergunta: você pretende ter filhos?
... o seu primeiro carro, comprado com tanto esforço, tenha um problema na injeção eletrônica?
... a sua namorada reclame que você não consegue alcançar o ponto G?
... o carro dê oficina a cada seis meses?
... você desloque o ombro tentando achar o ponto G?
... o casamento que você queria fazer no meio do mato, ao lado de uma cachoeira, com todos seus amigos chapados, acabe em breguice total, com igreja e bufê, sua mãe vestida de cor-de-rosa, as damas-de-honra de azul-calcinha, e você de branco-tédio?
... os bebês façam xixi exatamente na hora em que você terminou de trocá-los?
... você descubra que o problema com o carro, na verdade, era um mecânico desonesto que te esfolou em vários milhares de reais?
... sua mulher não se importe mais com o ponto G, e, aliás, nem com sexo de forma geral?
... sua nova mulher, após alguns meses, também venha falar do ponto G?
.... seu filho não seja o mais inteligente da classe?
... aparelhos de dente sejam tão caros?
... bufês infantis custem uma fortuna, estimulem as crianças a berrar feito malucas, e pular na piscina de bolinhas até perder o aparelho de dente?
... e isso sem falar na coxinha fria que eles servem?
... seu marido tenha jurado, antes do casamento, que adorava dançar e era um ótimo mestre-cuca; e hoje passe longe da cozinha e das boates?
... seu filho que você educou com tanto carinho e opções culturais se torne pagodeiro?
... seu bar predileto seja invadido pela molecada, e você se pegue reclamando feito um velho rabujento?
... aquele filhote de poodle bonitinho que você comprou se transforme num maníaco sexual que ataca as visitas?
... o maiô do verão passado não caiba em você de jeito nenhum?
... o mau-humor da sua mãe tenha piorado com a idade?

segunda-feira, julho 24, 2006

DAS FAIXAS ETÁRIAS PARA MULHERES DE TRINTA

Tati Carlotti

Homens de vinte são lindos, trazem ainda o desejo da aventura, as belas paisagens, o corpo liso de uma tarde espreguiçada na areia. Natureza é palavra mágica, capaz de enlouquecer os homens de vinte. Prepare-se: camping, trilhas, cachoeiras. De repente, você sente aquela leveza, o cheiro da estrada, a prancha de surf e sorri quando ele te conta seus projetos artísticos. Conhecer o mundo é objetivo de vida dos homens de vinte, não ria, eles levam a sério. Prepare-se para as grandes emoções, o telefone sempre vai tocar, a qualquer hora. Não fique chateada se ele ligar só para te contar que ficou com uma menina de quinze na noite passada, isso passa e como você tem mais o que fazer, aos poucos vai achar graça dos encontros e desencontros que ele fará questão de te contar em detalhes, com aquele ar de inspetor de seriado americano: “me perdoa, gata?”. Até que um dia, o coração dispara. Pode ser, no melhor dos casos, ali na praia. É que o homem de vinte vai nadar muito longe no mar, para o seu desespero e também do salva-vidas bonitão que vai te olhar com certa malícia, como quem pergunta: o que você está fazendo com esse pirralho? Sim, nesse momento, você vai se pegar de pulseirinha de palha no braço, rabo-de-cavalo, ao lado dos seus mais recentes grandes amigos, um grupo de malucos chapados que estarão há horas assassinando o violão. É fato, você vai sentir uma baita vontade de silêncio, o desejo forte de ouvir por um momento nada além do que o barulho das ondas. Não se levante, mesmo sem crenças, reze para que o garotão retorne são e salvo do fundo do mar. Sorria e tope caminhar até as pedras, mesmo que dê aquela preguiça. Afinal, tirando a família e os exames da faculdade, tudo vai bem ao lado dos homens de vinte. Então, contenha a bronca e derreta-se diante do sorriso bonito. Pague os pedágios da volta e não peça para baixar o som do carro. Cante alto e aproveite, a vida é intensa ao lado deles.

Homens de trinta são mais complexos. Já fizeram terapia e estão em fase permanente de mudança. Você reclamou da leveza dos vinte? Caia na densidade dos trinta. Embora digam que não, eles vão querer coisa séria, por isso, se não te ligarem no dia seguinte, não vai dar em nada, pelo menos nos próximos meses. Homens de trinta oscilam entra a vadiagem eterna e a necessidade de se tornarem homens de verdade. Um conceito inexplicável que você nunca vai entender, mas que cedo ou tarde, traduz-se em profissão, carro, casa e mulher fiel. Sim, não tem jeito, fiel. Terminada a faculdade e diante da primeira perda da inocência (negócio próprio é uma furada, faculdade de Humanas é um beco sem saída, carreiras artísticas não dão dinheiro e para ser um executivo é preciso vestir uma camisa-de-força), não é à toa que homens de trinta parecem sempre cansados. Leve-os para a praia. A barraca de camping será substituída por uma pousada. Chuveiro elétrico, ausência de pernilongos e jazz farão você se sentir no paraíso. Depois de um certo tempo, pizza será a palavra de ordem. Teatro, exposições, cinema também ajudarão a distrair. Se você der sorte e ele tiver um nível cultural bom, vocês vão trocar altas idéias sobre livros e principalmente, sobre projetos concretos da uma pseudo “vida adulta”. Homens de trinta estão preocupados com isso, há uma certa ansiedade, porque o mundo é especialmente cruel para eles, mas não se esqueça, o mundo é cruel para você também, porque ao lado de um homem desses, entre uma cerveja e outra, a pergunta chega: quais os seus projetos? Mesmo em dúvida, você dirá todos eles e ele dirá todos os dele, mas talvez vocês não consigam se escutar direito. Por isso, recomendo um barzinho à meia-luz, uma boa dose de absinto e torradinhas de queijo brie com manjericão, é preciso um clima para rabiscar projetos de vida em guardanapos, mesmo que seja necessário amassá-los depois.

Já os homens de quarenta estão numa encruzilhada. Existem aqueles que conseguiram todas as ambições dos trinta, esses são uns chatos de primeira, fuja. Há os que conseguiram parte dessas ambições e nesse caso, estarão com trabalho, prestação de apartamento e família, repito: família. Se um deles der uma olhada de esguelha para você, é porque está se sentindo um pouco preso, saudades das moças de biquíni dos vinte anos, pânico de acordar com a mesma pessoa até o fim da vida. Ao contrário do que dizem as revistas femininas, os homens de quarenta pensam, portanto, muita ética ao invadir a vida alheia. Aquela ladainha que você dizia para suas amigas malucas, se aplica em doses elevadas aqui. Embora digam que não, eles podem desistir do que construíram e isso não tem nada a ver com você, mas com o grau de insatisfação que carregam dentro de si mesmos. Por isso, cuidado. Caso partam numa viagem para Paraty num fim de semana contigo, as exigências da volta serão altas. E caso não partam, é você quem vai virar uma chata. Confusão é a palavra de ordem com os homens de família aos quarenta, eles vêem em você um grande atalho, mas jamais se esqueça, você não tem nada a ver com isso. Já os últimos, são aqueles que não conseguiram o que desejavam ou os mais espertos, aqueles que se tocaram de que as coisas são como são. Os primeiros são mais amargos e podem ficar durante horas te convencendo a ineficiência do sistema; os segundos são um perigo, ostentam aquela pontada irresistível de tristeza. É que a tomada de consciência de que não há lugar determinado pra ninguém dá um aspecto errante aos homens de quarenta. Mas não se iluda, eles são muito mais alheios do que supõe a sua filosofia de botequim, e não são bobos. Vão te ligar, caso você não os encha muito. Vão te mimar, caso você os mime de volta. E só vão te dar alguma coisa caso recebam algo em troca. Homens de quarenta estarão atentos a você, querem saber que tipo de pessoa você é, mas não se engane, mesmo que digam pouco sobre si mesmos, gostam de saber que estão sendo ouvidos a todo momento. Mudanças bruscas de percurso são inevitáveis, acostume-se, noites da mais pura bobagem e do mais delicioso papo se alternam com a monotonia do trabalho incessante. O vinho impera, os queijos satisfazem, as sopas de madrugada acalentam. E você acredita que pode ser absolutamente você mesma, então, desata a falar mais do que a boca e paciência.

Mas paciência, você só vai aprender a ter com um homem de cinqüenta. Muita calma nessa hora. Homens de cinqüenta são um perigo concreto. Lembre-se de todos os chavões que você já ouviu a respeito dos homens. Eles estarão definitivamente presentes na sua frente. Embora imprevisíveis, homens de cinqüenta são simples: eles só querem te comer. E isso é o máximo, porque você enfim, poderá ser você. Então, você bebe o uísque e até se arrisca a experimentar o charuto. O homem de cinqüenta não estará nem aí para o que você disser. Não vai te idolatrar como os de vinte, nem vai te testar como os de trinta e muito menos te julgar como os de quarenta. O homem de cinqüenta vai te ouvir como se fosse seu melhor amigo. Vai te encantar com as histórias que conhece ou já viveu. Vai te levar para bons restaurantes e te ensinar sobre os temperos indianos, sabores chineses, culinária tailandesa. Homens de cinqüenta vão te aquecer no frio do Chile e soprar seus ombros em Fernando de Noronha. Vão sorrir das suas piadas, mas nunca vão ligar quando você esperar. Isso é fato, eles só ligarão quando quiserem transar. Motel é a palavra de ordem. E o mais perigoso, o sexo é bom. Homens de cinqüenta não possuem mais a leveza dos vinte, há peso no toque deles. Homens de cinqüenta não tem mais paciência para as questões existenciais dos trinta, não vão discutir absolutamente nada depois. Homens de cinqüenta não cometem as loucuras dos homens de quarenta, embora te façam acreditar que possam cometê-las. Homens de cinqüenta querem viver a vida e a liberdade que conquistam nas horas vagas e fazem questão de mostrar que ainda são bons amantes. O único problema é que eles amam a diversidade. Há uma insaciedade no olhar dos homens de cinqüenta, o que não impede, de forma alguma, que eles se deitem no seu colo atrás de cafuné um dia desses. Mas nunca se esqueça, cafuné é tudo o que um homem de cinqüenta quer de você, depois do sexo, é claro.

Então chegamos aos homens de sessenta ou mais, dependendo do caso. Esses nunca te levarão a sério, desista. Vão te olhar como se você tivesse quinze anos, é inevitável. Mas não se ofenda, você realmente terá quinze anos diante de um homem desses. Ao contrário dos homens de cinqüenta, não estarão preocupados em te mostrar as belezas da vida, vez ou outra é que deixam escapar uma história só para testar se você está realmente atenta. Homens de sessenta são vaidosos, o mundo gira em torno deles e você funcionará sempre, quando estiverem inseguros em relação a si mesmos, como prova concreta do poder que ainda possuem. Mas acredite, você não vai se importar com isso, nem eles. Porque os homens de sessenta são verdadeiros ladrões de bons momentos. Eles te mostrarão o prazer sem muitas palavras e embora saibam muito mais do que você, vão te olhar como se você fosse um ser de outro planeta e te acharão sempre muito maluca, afinal, se você fosse uma moça normal, não estaria saindo com alguém tão mais velho. Eterna Lolita, sua presença será bem acolhida, doçura para as tardes de angústia íntima, mas sempre muito raras, só quando estiverem ociosos demais, porque homens de sessenta têm sempre algo urgente para fazer. E quando vierem atrás de bons momentos, eles saberão te dar, caso você aja exatamente como esperam que você aja, boas lembranças. Mas saiba de antemão, eles não possuem nenhuma paciência para as suas crises existenciais e muito menos, crises de recato. Eles querem sensações, são mais vorazes do que os homens de cinqüenta, embora disfarcem a fome com doçura. Homens de sessenta jamais vão te ligar, nem se quiserem; eles esquecem. É certo que vão largar seu número em agendas antigas e vão te deixar deslizar como chuva de verão pelas suas vidas. Então, certo dia, você vai se perguntar: o que esse cara quer? E vai descobrir que homens de sessenta não querem absolutamente nada contigo. Eles te deixarão disponível para quem sabe um dia. Primeiro, porque realmente não precisam de você, suas vidas estão mais do que completas. Segundo, porque mesmo se precisassem, você não valeria um centavo, nessa altura do campeonato.

terça-feira, julho 18, 2006

PEGADAS NA AREIA

Não se iludam, crianças: em pleno século 21, o Brasil continua sendo um país autoritário ao velho estilo. É cada um no lugarzinho que a sociedade determinou, e ai de quem tentar sair. (Principalmente se a tentativa for coletiva; individual, eles até perdoam). E uma das formas mais simples de preservar esse estado de coisas é apagar a memória, o passado das pessoas. Apagar sua identidade.
Tô cheia de amigos queridos, pessoas excelentes aliás, que pensam que estão vivendo numa versão pobre de Nova York, com legendas traduzidas, sei lá. Os caras não têm a menor idéia do que significa ser brasileiro. Já leram a obra completa do Bukowski, mas nem passaram perto do Lima Barreto.
E se não tem idéia da sua própria identidade, que dirá da dos seus antepassados.
Aqui em São Paulo, de forma geral, as pessoas chegaram de duas formas: ou no pau-de-arara, ou nos navios de imigrantes. Quem não é descendente de nordestinos, é de italiano. Ou de árabe, espanhol, português etc. Isso se não for de família quatrocentona: alguém aí é? No início do século 20, se falava mais italiano do que português nesta cidade...
Mas o Brasil, se por um lado ofereceu um novo lar a esses imigrantes, por outro lado passou sua identidade no liquidificador. Hoje, as pessoas já esqueceram essas histórias. Apagaram a memória dos avós ou bisavós que chegaram aqui com uma mão atrás e outra na frente, e deram duro para proporcionar aos seus filhos uma vida um pouco melhor.... E esse apagamento acontece com uma velocidade impressionante.
Uma vez fui fazer uma matéria sobre imigração com duas professoras que eram filhas – eu disse FILHAS - de libaneses. Elas davam aula num colégio de Estado. Gente, vou contar uma coisa: até hoje estou com raiva dessas duas. Como diria a minha irmã, elas não sabiam nem a hora da janta.
Onde vocês moravam, lá no Líbano? “Ah, numa aldeia aí... Não sei direito o nome...” E o que os seus avós faziam lá? “Ah, a gente não tem idéia...”. E por que vieram pra cá? “Sei lá... A gente não sabe essas histórias... Não somos muito de cultuar o passado, sabe?”.
Cultuar o passado. Eu tinha excursionado até Carapicuíba para entrevistar duas antas diplomadas que não “cultuavam o passado”, ou seja, não tinham a mínima idéia de onde vinham nem de quem eram. E elas eram professoras. Ensinavam crianças que provavelmente também aprenderiam a não “cultuar o passado”, ou seja, a apagar a sua História, desistir da sua identidade, e comprar a idéia de que tanto faz ter nascido aqui como em Nova York. Afinal, dá tudo na mesma. O mundo globalizado é um só e as gentes também. Ninguém tem identidade, ninguém tem antepassados ou história de família. Ninguém é ninguém. Com sorte, quem sabe não vira uma griffe?

Todo esse desabafo só para contar que, nesse fim-de-semana, estive no Museu da Imigração, lá no Brás; e que ali, recuperei a história de um italiano que veio para o Brasil.
Ele se chamava Ângelo Diana. Praticamente inaugurou a Hospedaria dos Imigrantes: chegou em 1888, e a Hospedaria, destinada a acolher o pessoal que vinha trabalhar nas fazendas da elite cafeeira, ficou pronta em 1887. Chegou sozinho, sem família, proveniente de Udine, na Itália. Ao que tudo indica, veio com a roupa do corpo, cansado da polenta da terra natal (dieta única dos camponeses italianos, naquela época). Reza a lenda familiar que embarcou clandestino, entrando num barril de vinho vazio. Veio fugindo de uma guerra colonial estúpida, e do destino de virar bucha de canhão.
Ângelo tinha dezenove anos. Era meu bisavô.
Ao contrário das professoras de Carapicuíba que “não cultuam” o passado, descendo de uma família de orgulhosos ítalo-caipiras que cultuou o seu por quatro gerações. Já estamos passando a história do Ângelo para seus trisnetos. Mas como uma família tão grande e tão espalhada conserva seu passado? Simples: pela tradição oral.
De uns tempos para cá, vários descendentes do Ângelo começaram a pesquisar e procurar suas raízes. É uma procura desinteressada: ninguém, até onde eu saiba, quer virar cidadão italiano. A gente não é mais italiano, é brasileiro. Mas queremos ser brasileiros que se conhecem, que sabem de onde vêm, e que talvez assim, quem sabe, tenham uma idéia de para onde vão!
Tenho RG, CPF e passaporte que me identificam como cidadã brasileira, nascida em Sorocaba, no Estado de São Paulo. No sábado, ganhei mais um documento: um certificado de passagem do meu bisavô pela Hospedaria dos Imigrantes.
Este documento é meu. Meu e da minha avó Conceição, que nunca pôde vê-lo. Meu e da minha mãe. Meu e de meus irmãos. Meu e da Marília, minha filha; do Gabriel, meu sobrinho; e de todos os meus outros sobrinhos e primos.
Dá pra sentir o valor desse papel?
No mesmo dia em que cheguei lá, várias pessoas passaram pelo escritório da Dona Midori, uma simpática funcionária que localizou rapidamente meu bisavô naquela massa imensa de imigrantes que passou por lá. Provavelmente o avô ou bisavô de Dona Midori também passou por lá um dia: pobre, faminto, destituído, deslocado num país estrangeiro, sozinho ou com a filharada atrás.
Poucas vezes vi tanta gente saindo de uma repartição do governo com uma cara tão feliz. Velhos e moços, todos exibiam orgulhosamente seu certificado, mostravam pros filhos, e recuperavam sua História.
Com dois reais vocês entram nesse lugar. Mais dez, e saem de lá com um pedaço importante da sua identidade. Mesmo nesses tempos de pouca grana, vale cada centavo. Porque ninguém, absolutamente ninguém, nasceu por geração espontânea. Ninguém é produto, griffe nem marca.
Somos, isso sim, seres humanos mergulhados na História.