terça-feira, agosto 15, 2006

UM CONVITE









Acima, o animal
marítimo que inspirou
essa página. Ela
vive na Patagônia,
já foi convidada a
participar do blog,
e só não aceitou porque
está muito ocupada
discutindo a relação
com seu marido otário.


Que cansaço essa história de escrever blog sozinha! E como se um não desse trabalho suficiente, eu fico inventando outros. Pior ainda: convido você, leitor, a participar desse blog.
Como? É, é isso mesmo. Esta semana estou inaugurando o blog "Eu, Otária":

http://www.euotaria.blogspot.com/

com o depoimento da fascinante, inteligente e bela otária Amanda Vieira, que mora em Brasília e é jornalista.
Façam uma visitinha. Todos estão convidados a participar, como explicado no texto abaixo:


Você, aí. Desculpe a pergunta: você por acaso é mulher?
Bom... da última vez que olhei...
Tem medo de bicho-papão?
O quê??!!
Eu perguntei: tem medo de bicho-papão?
Passei da idade, né?
Não se ofenda, foi só uma pergunta. Mas agora que já passou da idade do bicho-papão - do que você tem medo, hein?
Bom... tenho medo de perder o emprego, apesar de me esforçar tanto. De criar ruga, depois de gastar tanta grana com cosmético. De engordar, mesmo fazendo dieta. De ficar sozinha, depois de anos bancando a gueixa pro meu marido, namorado, ou seja lá o que for. Dos meus filhos se meterem em encrenca, apesar de todo esforço que fiz pra educar esses moleques. De...
Tem medo de chifre?
Chifre? Demais, menina. Demais. Perco até o
sono.

Em resumo, você tem medo de bancar a otária?
Exatamente, você tocou no ponto psicológico!! Tenho medo de ser otária, babaca, tonta, idiota, retardada. É, meus medos se resumem a isso. Meu terapeuta até me disse que...
Um momento. Estamos sem tempo aqui. Vou resumir a proposta: você que escreve, que é uma mulher inteligente etc - você gostaria de participar de um blog?
Mais um?
Esse é diferente.
Diferente como?
Pra começo de conversa, tem data marcada pra começar e acabar.
Já é um alívio, assim não fico escrava dessa bosta.
Olha a linguagem, pô.
Desculpaí.
O nome do blog é: “Eu, otária”.
Interessante.
Não é um diário, mas sim um relato de experiências pessoais. Será feito por escritoras. Mas elas vão botar a cara lá, com retrato e tudo. Vão escrever um texto pessoal. Tem que ser baseado nas próprias experiências, entende?
Nas minhas próprias experiências de...
Otária.
Ou seja, eu boto minha cara, meu retrato ali na Internet e assino embaixo: “Fulana de Tal, otária” ...
Você pegou o espírito da coisa, querida.
Mas o texto tem que ser estritamente pessoal?
Pode enfeitar um pouco, dar uma romanceadinha, mas seu compromisso básico é partir da experiência própria. Se expor um pouco. Dar a cara pra bater. Daí um blog, e não um site literário todo bonitinho. Uma por semana.
Homem não entra?
Não. Nada contra, mas eles não entram.
Tem post?
Claro que sim. E o post convida os leitores a exporem suas experiências enquanto otários, também. Se pintar alguma interessante, a gente publica.
Mesmo se for de homem?
Nesses casos a gente abre uma exceção.
É... a idéia tem um certo charme.
Você topa?
Vou pensar.
Qualquer coisa, dê uma olhadinha nessa página:

http://www.euotaria.blogspot.com/

e me manda um e-mail: doris@completo.com.br

terça-feira, agosto 08, 2006

A ARTE DE VOAR COM MEDO


Dóris Fleury

Um dia, pediram ao Jorge Amado uma definição de felicidade. O velhinho pensou, pensou e depois decretou:
- Felicidade, meu filho, é descer do avião!
Taí uma pessoa com quem me identifico (e não apenas por gostar dos seus livros, desprezados pela crítica literária míope). Felicidade é: descer daquele inferno alado, daquela máquina de suplício, daquele monstro voador que odeio com todas as minhas forças. E do qual, infelizmente, não posso prescindir.
Vou pros Estados Unidos no próximo dia 7. Que inferno... quer dizer, a viagem é o máximo; mas só o pensamento de entrar naquela coisa me deixa doente.
Antigamente é que deveria ser legal. Pra fazer uma viagem dessas, você embarcava num confortável navio, onde tinha cama pra dormir, tripulação te paparicando, boa comida e uma linda paisagem. Tá certo que demorava; mas pra quê a pressa?
E por que não gosto de avião? uai, por um motivo muito simples: eles caem.
É isso aí, pessoal. Aviões caem.
E não venham me com essa conversa de que eles são o meio de transporte mais seguro, etc. Não acredito nessas estatísticas. Elas são manipuladas pelas companhias aéreas. Aviões caem sim. Vive aparecendo na televisão, vocês não vêem televisão?
O avião é um absurdo, um troço que na minha opinião nem deveria ter sido inventado. Pra começo de conversa, já está na contramão de uma força natural poderosíssima. Quem Santos Dumont pensava que era, pra ir contra a gravidade?
Não deu outra: eles caem.
Quando comecei a voar, vinte anos atrás, as pessoas me diziam: com o tempo você acostuma e perde o medo. Estou esperando até agora que esse momento chegue. O tempo passa e meu medo só piora.
Dentro do avião, eu me transformo. Viro outra pessoa - uma pessoa apavorada. Não converso com ninguém. Tento ler, mas não consigo seguir o enredo do livro. Tento pensar em outras coisas... mas aí me lembro de que estou dentro de um avião. Porca miséria! Estou dentro de uma máquina imensa, cheia de combustível inflamável, viajando a velocidades absurdas, a quilômetros do solo!
Sem falar na comida, que é horrível.
As palavras "mais pesado do que o ar" soam no meu ouvido. Em tom fúnebre. Fico tão transtornada, que já teve caso de eu não cumprimentar um amigo que entrou no avião. Ele pensou que eu estivesse zangada com ele...
As aeromoças fazem aquela demonstração com a máscara que cai de cima etc. Eu sou a única pessoa ali ouvindo o que elas dizem. É nesse momento, aliás, que escuto outra expressãozinha que eu acho o máximo: "assentos flutuantes". Significa que posso terminar essa viagem boiando numa poltrona no Mar do Caribe, com um cardume de tubarões à minha volta... E isso, se der sorte e não me espatifar na queda.
Como as outras pessoas conseguem ficar calmamente em seus assentos, lendo revistas e batendo papo, é uma coisa que eu não entendo. Deve ser uma forma especial de loucura, que só poupou algumas pessoas sábias - como eu. Esse pessoal são todos uns inconscientes. Não têm noção do perigo.
Morro de inveja deles.
Quando falo do meu medo de avião, em geral as pessoas perguntam: mas de que parte da viagem você não gosta? Aí é que está, não gosto de nenhuma! A decolagem é um suplício: o momento em que o avião se separa do solo e começa a voar é de pânico absoluto, desamparado, frenético. Aí ele se estabiliza no ar; o problema é que eu não acredito nessa estabilidade. Qualquer sacudãozinho à-toa, desses que as pessoas dizem que são normais, me dá o maior susto. Durante o vôo, fico observando as aeromoças, vendo se elas não estão nervosas... E elas nada, passeando de um lado pro outro com a maior naturalidade.
Como uma pessoa se torna aeromoça? Essa é outra perversão que eu não entendo.
Aí as pessoas falam: e isso porque você nunca pegou uma turbulência. Turbulência! Jesus, Maria, José, eu sei que eu não vou sobreviver a uma turbulência. Vou falecer ali mesmo. Preciso de um negócio que me ponha pra dormir e com o qual eu não acorde, mesmo que o avião tenha sido seqüestrado por um bando de terroristas (em cujo caso o melhor é dormir mesmo).
Saio correndo pro meu terapeuta, que bondosamente me receita um tranqüilizante qualquer. Mas pra cúmulo do azar, sou daquele tipo de pessoa pouco sensível a anestésicos, tranqüilizantes etc. Comigo, o efeito deles acaba rapidinho. Nas duas ocasiões em que passei por cirurgias, acordei antes da hora.
Dessa vez vou pedir uma dose pra adormecer mamute. Se eu chegar em Nova York completamente grogue, azar, que se dane. A cidade está cheia de junkies, mesmo.
E isso não atrapalhará a sensação maravilhosa de estar voltando à terra firme... é fantástico! O Jorge Amado tinha razão, é pura felicidade. Inclusive, embora as tais estatísticas afirmem que grande parte dos acidentes acontecem na aterrisagem, nessa hora eu sinto muito menos medo. E botar os meus pezinhos em terra firme, então, é melhor que orgasmo.
Mas - alguém pode perguntar - se você tem tanto medo de avião assim, por que entra neles? Ora, porque senão, não poderia viajar. Deixaria de viver uma coisa maravilhosa e importante para mim. O Jorge Amado, com medo e tudo, viajou a vida inteira. E é o que eu pretendo fazer.
Alguém aí tem um Lexotan?

terça-feira, agosto 01, 2006

OH LlNDA IMAGEM DE MULHER QUE ME SEDUZ...


Dóris Fleury

Domingo à noite, maior chuva, maior frio, zero de coragem pra sair. Aqui em casa, ficamos na velha dupla TV & Sofá. No canal da TV paga Warner, passava um seriado chamado The L Word. 'Cês já viram? É uma história de lésbicas californianas que não fazem nada na vida, só passeiam de um lado pro outro, enchem a cara, fofocam e namoram. Assim que desliguei a televisão, meu marido decretou:

- Olha. Não é machismo da minha parte não. Mas achei esse seriado muito ruim! Ô roteiro fraquinho! Não acontece nada...

E o pior é que ele tinha razão, o seriado estava chato. Piorou desde a última temporada. Claro que sempre tem uma pegação das meninas pra esquentar o clima. Mas acaba caindo nos clichês do sexo heterossexual na telinha, ou seja: respiração ofegante, corpos suados, e muitas caras e bocas para a câmera.

No L World, todas as personagens são lindas. Sejamos sinceras: se a Jeniffer Beals me passasse uma cantada, eu repensaria seriamente minha opção sexual! Sejamos politicamente incorretas: cadê as lésbicas feias e caídas? Não aparece nenhuma! É a Terra da Fantasia GLS.

Mas tudo bem, eu gosto do seriado mesmo assim. Mil vezes isso que ligar a TV aberta e ver as personagens femininas das novelas e filmes que eles passam. Normalmente, quando eu zapo nesses canais, as mulheres estão:

a. tirando a roupa;

b. ou se debulhando em lágrimas;

c. ou levando porrada.

Explico: nas novelas, as mais novinhas e bonitas SÓ PENSAM NAQUILO. E SÓ FAZEM AQUILO. Chega uma hora que fica meio fake, né, porque elas nem têm tempo pra estudar, trabalhar, dar uma volta, tomar um cafezinho, nada!

Já as mais velhas estão sempre numa situação tristíssima. Elas são chifradas pelo marido, perseguidas pela sogras, assediadas pelo patrão... não é à-toa que choram! Umas histórias cabulosas. E aquelas que perdem o filho na maternidade? Nossa Senhora da Achiropita! Quando encontram o fedelho, vinte anos depois, não tem Sabesp que dê conta!

Isso nas novelas. Em filme policial, elas levam porrada, são esfaqueadas, estripadas, assassinadas por serial killers etc. Funciona assim: quando o roteirista percebe que a coisa está meio parada, tchum! espanca ou mata uma mulher, que é sempre mais dispensável que homem. Violência contra a mulher é sexy!

A TV paga não é nenhuma maravilha, mas lá, de vez em quando, você vê mulher fazendo coisas diferentes. Por exemplo: tem um seriado aí que a Geena Davis é presidenta dos Estados Unidos. Eu pessoalmente acho que tanto faz o presidente dos EUA usar terno ou tailleur, é tudo a mesma nheca. Mas é sempre uma variação, concordam?

A Geena Davis, além de presidir a nação e usar uns tailleurzinhos muito sem-graça, também tem que cuidar do marido, dos filhos e da mãe que é meio maluquete. Nos primeiros episódios ela até fazia o breakfast com ovos e bacon pra família; agora encontraram alguém pra essa função ingrata (o Ministro da Agricultura, provavelmente...)

Muito mais interessante é o seriado em que a Patricia Arquette faz o papel de uma médium que ajuda a polícia a resolver casos complicados. E, olha, é mais realista que a história da presidenta!

O marido da médium poderosa é um fofo, ajuda em tudo. Eles têm três filhas e às vezes o rapaz fica bravo porque a Patricia Arquette some para resolver seus casos; ou esquece as compras no supermercado, porque teve uma visão na seção de laticínios. É fogo ser casado com médium. Mas o legal é que a Patricia é uma mãe de verdade, que aparece fazendo coisas de mãe: respira fundo pra agüentar as malcriações da filha adolescente, espreme o orçamento pra comprar roupas, leva a menorzinha na escola ou no médico...

Sabe aquela tarefa que não acaba nunca mais: criar filhos? Aquela coisa que exige a criatividade de um artista, a capacidade de improvisação de um performer, e a calma de um monge tibetano? Pois é, tudo isso aparece no seriado. Viva!

Querem saber, eu acho que criar filhos é muito mais difícil do que perseguir serial killer. Ou perder o nenê na maternidade.

Tem também aquele seriado bárbaro, o Desperate Housewives, que todo mundo adora e não é à-toa. É super bem-feitinho, tem personagens multifacetadas, nem boas nem ruins: mulheres comuns. E revelou ótimas atrizes! Sorte delas, porque estavam entrando naquela faixa etária onde existe mais vida feminina em Hollywood...

Uma das housewives é uma moça que tem quatro filhos, um mais terrível que o outro, ninguém merece! mas ela enfrenta o desafio numa boa. Arranja um emprego, vai trabalhar e logo faz uma reivindicação revolucionária: eu quero uma creche!

Que novidade! Até agora, na TV e no cinema, as mulheres que trabalhavam estavam sempre lindas, impecáveis, sem manchinhas de leite regurgitado na lapela. Nunca precisavam ficar penduradas no telefone com a empregada, nem morrendo de preocupação porque deixaram o filho doente em casa. Gente: isso não é o mundo real.

Aí os luminares da comunicação afirmam que o público não gosta do mundo real, e sim de fantasia. Pode até ser verdade: a gente quer é fantasia. Mas por que não uma fantasia com personagens mais variados, mais complexos, mais profundos do que os clichês de mulher que andam por aí?

Nossas filhas assistem TV. Vocês não gostariam que elas soubessem que existem outras opções na vida, além de tirar a roupa, chorar ou levar porrada?

Eu gostaria.




terça-feira, julho 25, 2006

PEQUENAS DESILUSÕES

Dóris Fleury

Não, não são apenas as grandes decepções que machucam. É triste ver, por exemplo, o Lula finalmente assumir o poder e fazer essa merda de governo. É muito triste também – como vem acontecendo com vários amigos – escolher uma faculdade por vocação, se matar de estudar, ganhar o diploma e, anos depois, verificar que não consegue ganhar a vida com aquela profissão. E as decepções amorosas então? O fim do casamento, os problemas com os filhos, a velhice dos pais... Tudo isso é muito triste, de fato. Mas também contam as pequenas decepções; aquelas que pouco a pouco, inapelavelmente, vão nos tirando a inocência infantil, e a crença em algum tipo de justiça nesse mundo. Por exemplo, você acha justo que...
.... Papai Noel não exista?
... seus pais tenham encomendado um novo bebê?
... as bonecas não cresçam cabelos de novo, depois que a gente cortou os originais?
... seu pai tenha ajudado você com a lição, e a professora te dado zero?
... seu jogador de futebol predileto se revele um chato que recusa autógrafos?
... sua professora mais legal abandone a classe para se casar?
... aquele creme anti-espinhas não funcione?
... o delicioso primeiro pilequinho seja seguido por uma ressaca fenomenal?
... os professores da faculdade, que você imaginava uns luminares, se revelem burocratas medíocres?
... o namorado que você adorava tenha te abandonado pela mulher mais chata da faculdade?
... aquele cara fabuloso com quem você passou uma noite, e que parecia tão entusiasmado, nunca mais te telefone?
... o estágio que você arrumou com tanto esforço seja uma bela porcaria onde você fica servindo café ou, no máximo, navegando no Orkut?
.... aquele chefe que você respeitava te passe uma cantada?
... a entrevista do emprego promissor desemboque num questionário sobre sua vida pessoal, incluindo a famosa pergunta: você pretende ter filhos?
... o seu primeiro carro, comprado com tanto esforço, tenha um problema na injeção eletrônica?
... a sua namorada reclame que você não consegue alcançar o ponto G?
... o carro dê oficina a cada seis meses?
... você desloque o ombro tentando achar o ponto G?
... o casamento que você queria fazer no meio do mato, ao lado de uma cachoeira, com todos seus amigos chapados, acabe em breguice total, com igreja e bufê, sua mãe vestida de cor-de-rosa, as damas-de-honra de azul-calcinha, e você de branco-tédio?
... os bebês façam xixi exatamente na hora em que você terminou de trocá-los?
... você descubra que o problema com o carro, na verdade, era um mecânico desonesto que te esfolou em vários milhares de reais?
... sua mulher não se importe mais com o ponto G, e, aliás, nem com sexo de forma geral?
... sua nova mulher, após alguns meses, também venha falar do ponto G?
.... seu filho não seja o mais inteligente da classe?
... aparelhos de dente sejam tão caros?
... bufês infantis custem uma fortuna, estimulem as crianças a berrar feito malucas, e pular na piscina de bolinhas até perder o aparelho de dente?
... e isso sem falar na coxinha fria que eles servem?
... seu marido tenha jurado, antes do casamento, que adorava dançar e era um ótimo mestre-cuca; e hoje passe longe da cozinha e das boates?
... seu filho que você educou com tanto carinho e opções culturais se torne pagodeiro?
... seu bar predileto seja invadido pela molecada, e você se pegue reclamando feito um velho rabujento?
... aquele filhote de poodle bonitinho que você comprou se transforme num maníaco sexual que ataca as visitas?
... o maiô do verão passado não caiba em você de jeito nenhum?
... o mau-humor da sua mãe tenha piorado com a idade?